Variabilidade motora e aprendizagem: qual a relação?

Atualizado: Out 9



Durante os dois a cinco primeiros anos de vida é possível visualizar na criança uma larga variação no movimento, uma pequena quantidade de repetições e uma pequena tendência a seguir instruções. Cada repetição contém uma variação em relação ao movimento anterior mesmo após inúmeras tentativas, e essas variações são infinitas durante essa fase do aprendizado. Normalmente, essas variações são interpretadas pelos adultos como um ruído destrutivo ou incapacidade de reproduzir o mesmo movimento duas vezes e não como uma necessidade efetiva de aprendizado.





Variação motora é um termo adotado por diversas teorias, em diversas escalas de tamanho (e.g. muscular, bioquímica) e tempo (e.g. alterações em um gerador de padrão central, alterações na coativação), com a grande maioria convergindo para uma relação benéfica da variação, ao menos até certo limite. A uncontrolled manifold hypothesis, para citar um exemplo, dita que a variação é boa quando permite a conclusão da tarefa e ruim quando existe alteração no resultado. A variação motora, muitas vezes retratada de forma intercambiável com o termo “flutuação”, ganha espaço na ciência do esporte devido a ser mais sensível do que a avaliação biomecânica a encontrar diferenças entre atletas de níveis menores e maiores, como observado entre atletas de marcha atlética de nível nacional e internacional (CAZZOLA; PAVEI; PREATONI, 2016).


A aprendizagem diferencial faz uso das flutuações (perturbações estocásticas, i.e. aleatórias) que ocorrem nas repetições dos movimentos a fim de fornecer informações adicionais ao aluno, não apenas na própria repetição, mas entre as execuções dos movimentos subsequentes. Para tornar um movimento mais estável, ironicamente, a aprendizagem diferencial assume que devemos primeiro fornecer instabilidade (Figura 1).



Figura 1 – Diversas abordagens de treinamento, a aprendizagem diferencial leva a maior aprendizado por unidade de tempo. Fonte: Schöllhorn et al. (2010)


As variações que podem ser oferecidas nesse processo incluem: variações a nível articular, geometria do movimento, velocidade, aceleração, estrutura de tempo e ritmo, erros de movimento clássicos e alternância de equipamentos e ambientes. Em síntese, a aprendizagem diferencial adiciona perturbações estocásticas ao movimento com a intenção de fornecer um espaço maior de soluções para o atleta, onde ele ou ela pode reagir individualmente e mais especificamente no menor tempo possível.





Para testar isso, Schöllhorn et al. (2010) alocaram aleatoriamente 28 atletas barreiristas juvenis em dois grupos: tradicional (GT) e aprendizagem diferencial (GAD), antes da realização de um pré-teste de 60 metros com barreiras. Com exceção da intervenção, todos os procedimentos eram iguais para ambos os grupos.


O GT seguia as recomendações de treino da IAAF, com grande utilização de correção verbal e repetições de exercícios que exibem crescente semelhança com a técnica ideal. O treinamento do GAD, ao contrário, foi caracterizado principalmente pela constante inserção de variação sem correção verbal, o objetivo foi gerar maiores diferenças entre os movimentos subsequentes e permitir que os atletas encontrassem sua própria solução para a tarefa, todo exercício de barreira foi combinado com uma nova instrução que sempre estava relacionada ao exercício anterior, mas com uma restrição adicional. No pré-teste, nenhuma diferença entre os grupos foi encontrada (Figura 2).


Figura 2 - Diferença do GAD e GT antes e após a intervenção. Fonte: Schöllhorn et al. (2010)


Entretanto, após a intervenção, ambos os grupos melhoraram seu tempo de forma significativa com médias de -0.33s (GT) e -0.66s (GAD). Para evitar erros na média causados por grande melhora na performance de um único indivíduo, uma análise qualitativa foi feita comparando individuo por indivíduo e, de forma análoga, cada indivíduo do grupo GAD tem um par que melhorou menos no GT.


A variação, por muito tempo evitada e tratada como um possível risco de lesão, vem a luz do treinamento como uma forma de construir atletas mais robustos e adaptáveis.





Referências:


Cazzola D, Pavei G, Preatoni E. Can coordination variability identify performance factors and skill level in competitive sport? The case of race walking. J Sport Health Sci. 2016 Mar;5(1):35-43. doi: 10.1016/j.jshs.2015.11.005. Epub 2016 Jan 13. PMID: 30356959; PMCID: PMC6191987.


Schöllhorn, W. Beckmann, H. Janssen,D. Drepper,J. (2010) Stochastic perturbations in athletic field events enhance skill acquisition. In: Renshaw, I. Davids,K. Savelsbergh,G.J.P. Motor learning in practice – A constraints-led approach. London. Routledge 69-82.

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