Um guia essencial para a abordagem guiada por restrições (constraints)

Atualizado: Out 9



Um personagem que irei apresentar brevemente é James J. Gibson. Suas idéias revolucionárias sobre a percepção e ação formam uma base para muitas áreas de pesquisas populares no momento, incluindo a abordagem guiada por restrições (Constraint-Led Approach; CLA) e os sistemas dinâmicos. Gibson, que publicou seus trabalhos nas décadas de 50 a 70, estava essencialmente insatisfeito com as teorias tradicionais e indiretas do comportamento. Elas presumiam que o controle das ações depende de algum controlador interno e centralizado, uma espécie de CEO do cérebro.


Fazendo uma citação dele mesmo: “as ações direcionadas ao objetivo são controladas não pelo cérebro, mas pela informação. O controle está no sistema animal-ambiente. As regras que governam o comportamento não são como leis impostas por uma autoridade ou decisões tomadas por um comandante; o comportamento é regular sem ser regulamentado. A questão é como isso pode ser feito?”





Em visões tradicionais, esse CEO no nosso cérebro usa um modelo de representações do ambiente fornecidas pelo sistema perceptivo. Essa rejeição da ideia do controlador central por Gibson, introduz o conceito de auto-organização que é central para a teoria dos sistemas dinâmicos e para a CLA.


Semelhante a Gibson, Newell argumentou que nossos movimentos não são prescritos por nada, não há CEO em nossa cabeça - em vez disso, eles surgem como resultado de um processo de auto-organização que está limitado pelas constantes mudanças que nos são impostas.


Newell diz que a solução emerge a partir da interação de três conjuntos de restrições: o organismo, a tarefa e o ambiente. O objetivo desse texto é nos aprofundarmos, para entendermos como nós podemos manipular restrições para guiar uma auto-organização do sistema de movimento dos nossos alunos, atletas ou pacientes.


O ciclo percepção-ação transmite alguns aspectos importantes para essa abordagem. Primeiro, com o objetivo de compreender e moldar o processo de auto-organização em torno de restrições, precisamos entender as informações perceptivas disponíveis no ambiente e a dinâmica de ação intrínseca do indivíduo. E neste modelo, há o que é chamado de causalidade circular. Ou seja, a percepção não causa movimento, nem o movimento causa percepção. Existe uma interação mútua entre causas e conseqüências. Como o nosso movimento muda a forma como percebemos o mundo, o efeito de um evento (a iniciação de um movimento) retorna para influenciar o evento original (a percepção). Esta é uma das principais razões pelas quais é essencial manter a percepção e a ação “acopladas” o máximo possível durante o treinamento ou durante os exercícios de reabilitação.


Então, existe essa palavra mágica: restrição. O que exatamente isso significa?


1) Uma restrição é algo que elimina certas possibilidades ou configurações de ação. Então, o ponto-chave número um é: as ações não são causadas por restrições! Quando uma nova restrição é adicionada, ela não está prescrevendo uma ação específica de uma pessoa. Em vez disso, as restrições servem para excluir algumas ações. Assim, o indivíduo ainda apresenta sua própria solução de movimento por meio da auto-organização – devemos apenas dizer que suas possíveis opções para fazer isso foram reduzidas ou restringidas.





Então, basicamente, se o seu objetivo é apenas restringir o padrão de movimento a tal forma para o aluno alcançar a técnica ideal, ou a postura perfeita, sem considerar o contexto das interações e o acoplamento percepção-ação, então você está fazendo errado. O mindset dessa abordagem é guiar o sistema para a auto organização.


2) Ponto-chave número dois, adicionar uma restrição não torna necessariamente uma ação mais complexa ou difícil. Ela pode tornar mais difícil se, por exemplo, a restrição que você incluir tirar a solução de movimento mais fácil e atraente. Mas, uma restrição pode igualmente tornar mais fácil a obtenção de uma solução eficaz, estreitando o leque de opções possíveis disponíveis. Outra maneira de pensar é que as restrições podem ajudar a resolver o problema dos graus de liberdade de Bernstein, eliminando soluções que não funcionarão.


3) Ponto-chave número 3, as restrições em nosso ambiente variam em seu grau de dependência de tempo - algumas restrições mudam muito rapidamente, enquanto outras são lentas para mudar. Enquanto as restrições estruturais são independentes do tempo (como o peso e a altura do nosso corpo), outras são altamente dependentes do tempo: ou restrições funcionais que mudam a cada instante (como a marcação específica de um oponente em um dado momento, ou a influencia da fadiga na nossa coordenação). Segundo Gibson, restrições que são relativamente independentes ao tempo promovem a estabilidade da nossa coordenação, enquanto que as com dependência do tempo exigem adaptabilidade.


Usar a teoria de sistemas dinâmicos para entender a coordenação em movimento tem algumas vantagens. Primeiro, significa que podemos usar uma linguagem comum para descrever todos os níveis do sistema - o mundo, o corpo e os processos neurais e sensoriais subjacentes. Em segundo, fornece ferramentas para entender como o sistema evolui ao longo do tempo. Isso nos permite conceituar a estabilidade e adaptabilidade de um sistema de movimento. O que já apresentei no último módulo, em um sistema dinâmico, soluções comportamentais estáveis correspondem a atratores, enquanto transições entre padrões comportamentais correspondem a bifurcações (Figura 1).



FIGURA 1 - Representação de um estado atrator profundo (estável) e de uma flutuação/bifurcação (instabilidade).


Aqui podemos usar a metáfora dos atratores e repulsores de estados estáveis. Embora esses conceitos tenham significados muito específicos dentro da teoria de sistemas dinâmicos, podemos usá-los conceitualmente no design dos exercícios. Existem soluções de movimento específicas que seu cliente sempre recorre (em outras palavras, é atraído), não importa o que você faz? Por exemplo: dominância de flexão de lombar quando requisitado uma flexão de quadril. Regularidade e manutenção do valgo dinâmico durante diferentes tarefas com impacto, intensidade e mudanças de direção. Dentro de um contexto esportivo, dificuldade de encontrar soluções diferentes no futebol quando a dinâmica do jogo exige um deslocamento com a perna não-dominante (o sistema pode tender a se auto-organizar para buscar solução com a perna dominante).





Identificar esses estados estáveis atratores pode ser uma maneira eficaz de direcionar restrições individuais que podem estar limitando a aquisição de habilidades.


Este é realmente um ponto muito importante para darmos ênfase em relação às informações presentes no ambiente e às interações entre as restrições que guiam o comportamento. À medida que um aluno ou paciente adquire uma nova habilidade, e novas restrições são adicionadas por um profissional, é possível que ocorra uma bifurcação do sistema à medida que a educação de atenção do aprendiz fica em sintonia com as variáveis perceptuais de ordem superior. Então, considerando a não-linearidade do sistema, em vez de o aluno fazer um pequeno ajuste, podemos ver uma grande reorganização espontânea da dinâmica do sistema - à medida que o comportamento é reorganizado em torno de uma ordem superior, de uma trajetória de controle, especificando as fontes de informação.


4) O ponto-chave número 4: nem todos os recursos de um ambiente de desempenho são uma restrição. Conforme também já falei no último módulo, o fato de um recurso específico do ambiente ser ou não uma restrição depende da natureza da tarefa que está sendo executada.


Ok, agora vamos nos voltar para as Newell propôs que existem três categorias de restrições de tarefas.: (i) o objetivo, (ii) as regras que especificam ou restringem a dinâmica da tarefa e (iii) o equipamento ou acessórios que especificam ou restringem a dinâmica da tarefa. Assim, como o nome indica, as restrições de tarefas são altamente específicas para a ação ou o esporte que está sendo executado. De muitas maneiras, estas são as mais importantes para o profissional entender, porque elas geralmente são aquelas que nós manipulamos.


Vamos ver um exemplo do basquete: imagine que você é um armador driblando a bola pela quadra em direção à cesta. Em primeiro lugar, obviamente, as regras do basquete (por exemplo, driblar a bola) restringem a maneira que você pode se mover. Em segundo lugar, as propriedades do equipamento (a bola) também limitam as soluções de movimento. O quanto a bola é inflada restringirá as combinações de forças que resultarão em dribles bem-sucedidos.


Finalmente, seu objetivo restringe as soluções. É para marcar? 3 pontos ou 2 pontos? Deixar o cronômetro estourar? Novamente, o ponto aqui é que as restrições de tarefa não especificam o padrão exato de coordenação que deve ser usado que elas restringem ou limitam (há muitas maneiras diferentes de driblar legalmente ou de arremessar uma bola na cesta, por exemplo).





E mesmos nos esportes que têm fortes restrições, como a ginástica, que de fato recompensam a forma e a técnica, ainda há espaço para auto-organização e individualidade.


Finalmente, existem restrições individuais ou do organismo. Essas são coisas que obviamente residem em cada um de nós. Alguns que podemos imaginar são a altura, o peso, amplitude de movimento articular e a velocidade máxima. Mas essas restrições ainda incluem coisas em todos os níveis de análise dentro de um organismo, desde o próprio padrão postural estrutural até a taxa em que um indivíduo pode formar novas conexões sinápticas.


Alguns pontos-chave aqui: primeiro, se uma característica de um indivíduo é uma restrição, depende da natureza da tarefa que ele está realizando. Só avaliar a postura estática de alguém diz muito pouco ou quase nada sob a sua capacidade de agachar, jogar futebol ou subir escadas. Em segundo lugar, se identificamos uma característica individual específica como uma restrição ao desempenho de uma tarefa específica, pode ser possível resolver isso por meio do trabalho de força e do condicionamento (afinal de conta, somos sistemas não-lineares e imprevisíveis), mas provavelmente podemos achar um atalho se desenvolvermos exercícios específicos para a tarefa.


Em termos de especificidade de tarefa, os mapeamentos entre as informações disponíveis e a variáveis elementares são específicos para a tarefa que está sendo executada e podem ser montados e remontados com base nas tarefas e objetivos atuais do executor. Não existe uma solução única geral para todas as tarefas. O CLA é a própria definição de que tudo depende. A ideia básica é: depende de como você vai desenvolver seu exercícios (deve ser ajustado para o indivíduo específico e a situação específica). “Tudo depende” é uma propriedade inerente do CLA. Por definição, permitir que um cliente se auto-organize guiado pelas restrições individuais, ambientais e da tarefa, significa que cada pessoa e cada situação precisarão ser treinados e estimulados de forma diferente. É a aplicação do princípio básico da individualidade biológica.





5) Ponto-chave número 5: como um atleta interpreta compreende as restrições pode ser muito importante. Um exemplo interessante que Newell discute é o nado de peito na natação. A regra original (ou restrição de tarefa) para esse evento era que as pernas e os braços precisavam se mover simultaneamente e em sincronia. Por muitos anos, muitos nadadores assumiram que isso também significava que as pernas deveriam ser mantidas debaixo d'água - em outras palavras, eles adicionaram uma restrição de tarefa que não foi explicitamente declarada no livro de regras.


Mas na década de 30, um nadador interpretou isso de uma maneira diferente, quando percebeu que podemos gerar muito mais energia saindo da água. E isso levou ao desenvolvimento de um novo evento de movimento com diferentes restrições de tarefas, o nado borboleta.


Esse ponto é essencial, o CLA não significa remover a cognição do praticante da equação de desempenho! Em outras palavras, é possível definir um objetivo sem ditar como ele será alcançado.


6) O ponto-chave 6, talvez o mais importante de todos e que espero que tenha ficado evidente na maior parte desse artigo. A habilidade do desempenho é determinado pela interação entre as restrições individuais, de tarefa e ambientais. Os 3 pontos do triângulo de Newell (Figura 2) formam um sistema que cada atleta em cada esporte está vinculado, que cada indivíduo em reabilitação está vinculado e que também cada bebê aprendendo a engatinhar e andar está vinculado.



FIGURA 2 - O triângulo de Newell


Como nem todo aspecto de uma tarefa, do ambiente o do indivíduo é uma restrição, o uso efetivo do CLA depende primeiramente de uma análise crítica e detalhada da tarefa, e de uma análise detalhada da solução de movimento que o atleta em particular está usando atualmente. As restrições precisam ser manipuladas com essas duas coisas em mente.


Então, algumas perguntas podem nortear o processo de desenvolvimento de exercícios:


- Qual é o aspecto específico da solução de coordenação que eu quero mudar nessa pessoa?


- Como esse aspecto está relacionado a tarefa específica?


- Como posso alterar as restrições na prática de exercícios para incentivá-las a encontrar uma solução melhor?


Essas perguntas iniciais são fundamentais por que dificilmente questionamos a relevância de um padrão de movimento analisado de maneira isolada para uma determinada tarefa específica. Existem muitas ferramentas de triagem de movimento disponíveis que tem essa proposta. Estabelecer uma ponte com evidências científicas aqui também é fundamental. Por exemplo, um profissional pode identificar durante a corrida um padrão de pisada com o retropé como sendo o preferencial do seu aluno. Ele imediatamente busca exercícios ou comando verbais para que o aluno começa a adotar um padrão de pisada com o médio e antepé, principalmente porque ele entende que existe um padrão melhor ou pior, certo ou errado. Mas o que a literatura diz sobre isso dentro da especificidade da tarefa? E qual a relevância desse tipo de pisada para o contexto desse aluno em particular? Esse tipo de raciocínio utilizado por esse profissional é focado basicamente na tarefa, sem considerar as interações sistêmicas individuais do aluno. Esse exemplo não significa que não possamos criar estratégias para modificar o padrão de pisada. Mas as nossas perguntas precisam ser bem elaboradas para justificar essa intervenção.





7) E um último ponto importante, tanto nos esportes quanto em nossas atividades funcionais, muitas das restrições que uma pessoa enfrenta mudam com muita frequência, de modo que o design dos exercícios precisa refletir isso. Por exemplo, podemos querer manter uma restrição no lugar até que um certo padrão de movimento se torne relativamente estável (isto é, esteja dentro de algum limiar aceitável que tenhamos definido), para então alterarmos uma restrição para promover um outro conceito importante: adaptabilidade.




Leitura Recomendada:


Glazier PS, Davids K. Constraints on the complete optimization of human motion. Sports Med. 2009;39(1):15-28. doi:10.2165/00007256-200939010-00002

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