Percepção Háptica e Tensegridade

Atualizado: Out 9



Esse texto pode ser um pouco incomodo para alguns profissionais, porque ao interpretar o corpo como um sistema tensegrity isotrópico e homogêneo você deve abandonar a ideia de que determinados movimentos são prejudiciais. Se o corpo responde e percebe diretamente a deformação dos tecidos e age de maneira auto-organizada e adaptativa, parte dos nossos conceitos vigentes sobre movimento devem mudar.






Vamos aos conceitos fundamentais dessa abordagem: as coordenadas funcionais da percepção háptica compreendem as já conhecidas propriocepção e exterocepção, além de dois termos pouco usuais como a expropriocepção e proexterocepção. Propriocepção é a nossa percepção sobre a posição do nosso próprio corpo, exterocepção é a nossa percepção do ambiente, proexterocepção é a nossa percepção do nosso corpo em relação ao ambiente e, finalmente, expropriocepção é a percepção da relação do ambiente com o nosso corpo (Figura 1). Esses quatro conceitos mudam totalmente a forma que entendemos o toque e nossa percepção tátil do mundo. Imagine um jogador de beisebol rebatendo uma bola, apesar de não tocar diretamente na bola ele consegue perceber a força gerada por ela e, dependendo de sua história prévia na modalidade, ajustar seu próprio movimento para concluir a tarefa de rebater. Esse ajuste não-visual só é possível graças a informação oferecida pelo ambiente e a capacidade perceptiva do sistema háptico.



Figura 1 - Coordenadas funcionais da percepção háptica



A chave para todas as funções do sistema de percepção háptica é a deformação temporária dos tecidos, juntamente com sua característica mecanosensível. Dessa forma, entendemos que o organismo responde de diferentes formas a diferentes deformações e, lembre-se disso: ele responde a deformação de maneira espontânea, isso é uma característica que independe de sua vontade consciente.





Como isso ocorre?


O tecido conjuntivo é composto por tendões e ligamentos (denso e regular), bem como outros tipos coletivamente nomeados de fáscia. A função potencial de união do tecido conjuntivo, em especial a fáscia, enfatiza o conceito que aqui será debatido. O tecido conjuntivo liga fibras musculares a fibras musculares, músculos a músculos e músculos a ossos. O tecido conjuntivo liga cada célula do corpo a sua vizinha e, indiscutivelmente, a mecânica interna de cada célula ao estado mecânico do corpo como um todo.


Um modelo estrutural deve ser compatível com essa análise em múltiplas escalas de tamanho. Essa mesma arquitetura deve ser capaz de suportar os conceitos da percepção háptica e ser altamente responsiva a deformação, é necessário conhecer essa estrutura para entender o fenômeno da adaptabilidade do organismo a forças mecânicas —a arquitetura tensegrity—que promete a homogeneidade e isotropia exigidas para uma percepção háptica. Homogeneidade garante que as características físicas do sistema devem ser invariáveis independente da sua localização, desde tamanho micros (células) até tamanhos macros (corpo inteiro), revelando uma multifractalidade. Isotropia garante que as propriedades físicas do sistema serão as mesmas independente da direção considerada.





Tensegridade é uma arquitetura que permite a estabilização de uma forma através de componentes descontínuos de compressão dentro de uma rede contínua de elementos de tensão (Figura 2). Note que os componentes são suportados sem necessitar que eles se toquem por conta da tensão pré-existente garantir a formação de uma estrutura firme, triangulada e auto-equilibrada. Independente da direção da aplicação da força, após se deformar e lidar com as forças compressivas, uma estrutura de tensegridade retorna ao seu estado original.


Figura 2 - Modelo de tensegridade celular (INGBER, 2003).


Focando na estabilidade desse sistema temos o conceito da “solução nula”, que é definido como o equilíbrio estável quando a estrutura retorna para sua configuração inicial após a aplicação de perturbações arbitrárias ou, em outras palavras, se as forças tensionais são capazes de lidar com as forças compressivas. Sintetizando as informações, em um sistema de percepção háptica, as forças deformam os tecidos e essa informação garante uma resposta ajustada do movimento, isso só é possível pela arquitetura tensegrity. Ainda de acordo com a abordagem ecológica, essa informação percebida através do toque não necessita de processamento interno ou inferencial, a percepção háptica é capaz de perceber as invariantes presentes na energia mecânica estruturada pelo ambiente de forma especifica, informando fielmente sobre as características do mundo físico.


Mas porque as pessoas têm diferentes respostas a estímulos mecânicos se possuímos o mesmo sistema háptico? Parte disso pode ser explicado pela adaptabilidade do sistema. Existe um link causal entre arquitetura e função: A função é guiada e restringida pela arquitetura, e a arquitetura é degradada, mantida, mudada e estabelecida pela função. Logo, devemos entender que nossos movimentos sofrem interferência da história experenciada pelo sistema.





Retornando ao tópico do início da discussão, se o corpo responde e percebe diretamente a deformação dos tecidos e age de maneira auto-organizada e adaptativa, parte dos nossos conceitos vigentes sobre movimento devem mudar.


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