Entendendo a Abordagem Ecológica



Do ponto de vista filosófico, grande parte das teorias tem adotado o realismo indireto como ponto de apoio para formular suas hipóteses, teorias como a programação motora e esquema são os principais exemplos de modelos que acreditam que existe mediação entre a realidade e a percepção do observador, ou seja, uma representação interna deve ser construída para moldar o que o indivíduo percebe.



Esse tipo de abordagem perceptiva foi (ou ainda é) bastante comum na percepção visual e é representada pelo problema do homúnculo (DAVIDS; WILLIAMS; WILLIAMS, 2005). Para exemplificar, acreditava-se que um “pequeno humano” ficava na cabeça e era responsável por “assistir” a imagem captada pela retina, interpretar essa imagem e nos informar essa interpretação do mundo. Sendo assim, a nossa percepção visual era mediada pelo homúnculo, tornando a percepção da realidade indireta.


Contudo, grandes problemas surgem dessa abordagem representacional, dois desses problemas serão mostrados aqui: o empréstimo de inteligência e a regressão infinita. O empréstimo de inteligência se refere a denotação de um fenômeno a uma determinada entidade, um exemplo é afirmar que o cerebelo é a estrutura responsável pela manutenção do equilíbrio corporal, esse tipo de abordagem leva ao segundo problema, a regressão infinita. Quando assumimos nas teorias do controle motor a existência de um controlador, criasse então a necessidade de saber quem controla o controlador e quem controla o controlador do controlador... Sempre que um fenômeno só pode ser explicado utilizando-o como premissa, não podemos tirar nenhuma informação útil desse pensamento.


Voltando ao exemplo do homúnculo, se ele realiza a mediação entre o mundo real e a nossa percepção, quem faz essa mediação para ele? Um segundo homúnculo dentro da cabeça do primeiro? E quem faz a mediação para o segundo homúnculo? Um terceiro homúnculo na cabeça do segundo? Novamente, uma regressão infinita surge a partir de um empréstimo de inteligência. Por conta disso, abordagens baseadas em representações internas são altamente questionáveis. Obviamente, essa é uma perspectiva filosófica, mas substitua o homúnculo por qualquer outra parte do seu corpo, você consegue explicar o fenômeno sem utilizar ele mesmo como premissa?


Contrariando essa visão, a abordagem ecológica à percepção e ação assume o realismo direto e, portanto, que nenhuma mediação é necessária para perceber o ambiente, aqui a informação e não os estímulos são percebidos. Para ilustrar esse cenário iremos utilizar novamente a informação visual: imagine que uma luz é incidida sobre um ambiente, essa luz será refletida em diversas direções e intensidades. As propriedades do ambiente são diferentes entre si, portanto, elas modificam a luz refletida dando a ela estruturas particulares. Esse processo estrutura a energia luminosa refletida e a transforma em uma informação disponível. Essa informação (energia luminosa estruturada) especifica, por exemplo, as características de textura e superfície do ambiente (FONSECA; FARIA; OCARINO; MANCINI, 2007; GIBSON, 1986). GIBSON (1986) entendia a informação como energia estruturada pelo ambiente que mantém uma razão de 1:1 com a sua fonte, não necessitando de mediação interna ou processos inferenciais para ser percebida pelo observador. Em outras palavras, a percepção ocorre de forma direta pois a informação específica fielmente o ambiente que a estruturou.





Portanto, não existe sentindo para uma representação interna de uma informação que não necessita ser estruturada, enriquecida ou decodificada. O conceito clássico de engramas motores, para citar um exemplo, não tem validade na teoria ecológica pois é uma representação interna da realidade.





A teoria ecológica dita que antes de realizar qualquer ação precisamos perceber o nosso ambiente através de um fluxo de energia perceptível aos nossos sentidos, como a luz ou as forças que agem sobre nosso corpo (energia mecânica). Você ver uma maçaneta e a movimenta para abrir a porta; visualiza um chão escorregadio e realiza um controle prospectivo do seu ato para não cair. Isso também ocorre em níveis menores, como a alteração dos disparos da CPG ou mudanças na coativação muscular em resposta a alterações no ambiente. No basquete, o jogador observa a trajetória da bola durante um passe e consegue estar presente no local certo para recebê-la, modulando sua própria velocidade a partir da percepção visual da bola. Informações convidativas e que ditam as possibilidades de ação oferecidas pelo ambiente, são definidas como affordances (GIBSON, 1986).


Mas ter as propriedades para perceber uma affordance não garante que a ação será realizada. O animal deve ter a capacidade para agir da mesma forma que a propriedade para perceber, essa capacidade para agir se chama effectiveness. O ar é percebido como um meio que permite voo para alguns insetos, mas não para os seres humanos; transpor um sarrafo de 1,90 metros na prova de salto em altura pode ser percebido como possível para um indivíduo treinado, mas não para um sedentário. Affordances sempre existirão no ambiente independente de um observador, mas certas escolhas são bloqueadas ou percebidas de diferentes formas por diferentes animais.


De forma complementar, a efetivação de uma affordance abre espaço para a percepção de novas affordances. A frase “o animal percebe para agir e age para perceber” demonstra que a percepção tem como principal função guiar a ação do animal e, ao agir, ele gera mais informação para ser percebida, formando um ciclo e uma mutualidade entre as oportunidades para a ação (affordances) e as capacidades para agir (effectiveness).





DAVIDS, K.; WILLIAMS, A. M.; WILLIAMS, J. G. Visual perception and action in sport. Routledge, 2005. 113582665X.


FONSECA, S. T.; FARIA, C. D. C. M.; OCARINO, J. M.; MANCINI, M. C. Ecological approach to perception and action: Fundaments for motor behavior. Brazilian Journal of Motor Behavior, 2, n. 1, 2007.


GIBSON, J. J. The Ecological Approach to Visual Perception. Lawrence Erlbaum Associates, 1986. 9780898599596.




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