É possível periodizar a aprendizagem motora? - Parte 1

Atualizado: Out 9




Como a maioria das pessoas sabe, no treinamento físico há uma longa história de uso de abordagens sistemáticas para desenvolver cronogramas de treinamento, tanto em escalas de tempo curtas como em mais longas. Os que me vêm à mente são os programas de treinamento típicos projetados para corredores de longa distância, nos quais você aumenta tanto a quilometragem total, como a duração da sua corrida longa de fim de semana em blocos de 4 semanas mais curtos para evitar lesões e overtrainning. Normalmente, isso também envolve diferentes tipos de corrida e treinamento com pesos. Este exemplo ilustra que a maioria dos treinamentos físicos envolve uma periodização, que pode ser definida como um planejamento de curto e longo prazo para prescrever cargas de trabalho e tarefas específicas. Dentro desses domínios, também existem procedimentos bem desenvolvidos para monitorar o progresso (por exemplo, observar sua frequência cardíaca na corrida) do plano de treinamento, para que ele não seja completamente rígido e possa ser adaptado com base na resposta do atleta ao treinamento e seu status de desenvolvimento.





Até muito recentemente, esses são conceitos sobre os quais realmente não pensamos muito em pesquisas sobre aprendizagem motora e aquisição de habilidades. Uma razão provável para isso é que, na maioria dos estudos, usamos tarefas muito simples que podem ser aprendidas em poucas horas ou dias e requerem muito pouca adaptabilidade, de modo que não existe um motivo real para pensar em prazos mais longos. Devemos e podemos desenvolver uma abordagem de periodização semelhante ao treinamento de habilidades? Como devemos ajustar o que, como e quando praticamos, para que os executores adquiram habilidades o mais rápido e eficientemente possível? Quais fatores devemos levar em consideração? O que devemos monitorar para determinar quando é apropriado avançar para um novo tipo de prática? Como isso deve se relacionar com as etapas envolvidas na aquisição de uma habilidade? Esses são os tipos de perguntas que quero tentar abordar neste texto. Para isso, examinarei dois modelos recentes e diferentes propostos para a periodização do treinamento de habilidades. Por treinamento de habilidades, estou me referindo ao que Keith Davids e colegas definiram como a capacidade do atleta de "procurar, explorar, descobrir, montar e estabilizar a coordenação dos padrões de movimento".


O primeiro modelo que quero examinar foi publicado por Damien Farrow e Sam Robertson em 2017. Em sua introdução, os autores enfatizam que a periodização do treinamento de habilidades é uma área subdesenvolvida, sem estruturas existentes. Como eles salientam, grande parte do problema é a falta de monitoramento comparável com a carga no treinamento de habilidades - com a maioria dos estudos e modelos focando apenas nos resultados de desempenho, ao invés de nos processos subjacentes, que geralmente podem ser difíceis de observar e medir objetivamente . Para ter uma visão de habilidade no longo prazo, precisamos separar efeitos temporários e de curto prazo do aprendizado de prazo mais longo. Em seu artigo, os autores desenvolvem uma periodização de aquisição de habilidades (SAP; Skill Acquisition Periodization) construída com base em alguns princípios fundamentais do aprendizado motor.





O primeiro conceito considerado em sua estrutura é a Especificidade. Para isso, os autores constroem o conceito de "design representativo de aprendizagem", que, como sabemos, é a extensão até onde a prática prescrita reflete as demandas psicológicas da competição. Propõe-se que, na prática, devemos buscar um alto nível de representatividade, mas eles também destacam uma questão importante que precisa ser considerada. Ou seja, foi demonstrado que uma maior representatividade está associada a uma carga maior no atleta - tanto física quanto cognitivamente. Por exemplo, em relação à comparação com uma prática pouco representativa, demonstrou-se que uma maior representatividade no treinamento de futebol envolve maior intensidade, esforço cognitivo, maior distância percorrida e maior complexidade na tomada de decisões. Outro exemplo pode ser visto na pesquisa de escalada. Especificamente, uma maior ansiedade e uma maior atenção demandada (análoga a maior 'carga') foram encontradas em uma tarefa de escalada de paredes (rocha) situada mais alta a partir do solo do que em uma tarefa idêntica e menos representativa mais baixa em relação ao solo. Portanto, em outras palavras, jogar um atleta diretamente na prática altamente representativa é o equivalente psicológico de levantar uma barra com uma tonelada de peso ou planejar uma corrida muito longa no início do treinamento. Ou, nas palavras dos autores: “desenvolver uma maior compreensão dessa relação entre carga e representatividade da tarefa é essencial quando as demandas longitudinais do treinamento de alto desempenho são consideradas”.


Para levar adequadamente esses efeitos em consideração no desenvolvimento de um programa de treinamento, os autores propõem desmembrar o treinamento em termos das manipulações de restrições utilizadas. No futebol, por exemplo, considere as restrições de tarefas relacionadas ao número de jogadores no campo e tempo concedido a um jogador antes que ele tenha que tomar a decisão de passar a bola, além de uma restrição ambiental em relação ao tamanho do campo. Dentro dessas restrições, pode haver diferentes níveis de complexidade: fazer um passe rápido com muitos jogadores em um campo pequeno é um alto nível de complexidade. Farrow e Robertson sugerem medir e/ou planejar o número de tentativas que serão feitas em diferentes níveis de cada uma dessas restrições. Por exemplo, se o jogador fez 200 passes no microciclo, 50 podem ser executados em 1-2 segundos, 60 em 2-3 segundos e 90 em mais de 3 segundos. Podemos então convertê-los em porcentagens e fazer comparações de semana a semana na carga sendo colocada no jogador em termos de complexidade da restrição - novamente, com uma carga maior correspondendo a uma maior especificidade ou representatividade.


O próximo conceito examinado na estrutura é a Sobrecarga. Para isso, os autores adotam outro conceito que pode estar relacionado às demandas cognitivas de uma tarefa de prática - interferência contextual. Os autores declaram: “quando considerada em uma estrutura de periodização, a literatura de interferência contextual também é clara quando diz que, no aprendizado inicial, uma abordagem de prática  em blocos (baixo esforço mental) pode às vezes ser utilizada e até preferível. À medida que o aprendizado progride, o desafio exigido do executor também deve progredir; nesse caso, a prática pode ser estruturada de uma maneira mais aleatória, a fim de aumentar o esforço mental”. Novamente, ao pensar em como essa progressão entre a prática em blocos e a aleatória deve ocorrer, os autores apelam ao grau de desafio: “uma vez que um período de estabilidade de habilidade ou consistência de execução é visto, este é o sinal para um treinador mudar a estrutura, a organização ou informação fornecida na prática para sobrecarregar ainda mais o executor. Esse conceito é semelhante à abordagem usada em programas de treinamento de resistência, onde as séries e as repetições são manipuladas quando um atleta começa a executar os vários exercícios com algum grau de facilidade”.





Para criar sobrecarga no programa de treinamento, um treinador pode se concentrar em uma restrição específica que está sendo usada. Por exemplo, no caso do futebol, eles poderiam aumentar sistematicamente a porcentagem de passes feitos com o menor tempo de processamento (1-2 segundos). O próximo conceito considerado na estrutura da SAP é a Reversibilidade, que é a ideia de que os ganhos benéficos do treinamento serão perdidos se o atleta parar ou reduzir a quantidade de prática. Na pesquisa sobre aprendizagem motora, é claro que desenvolvemos métodos para avaliar isso. Em particular, utilizando testes de retenção e de transferência de desempenho. Os testes de retenção avaliam a permanência relativa da mudança de habilidades e separam o aprendizado de fatores transitórios de curto prazo, como fadiga e nível de motivação. Enquanto os testes de transferência avaliam a adaptabilidade da mudança de habilidade para diferentes contextos de desempenho - com a questão fundamental, é claro, se os ganhos vistos na prática são transferidos para a competição real. Obviamente, nas questões de reversibilidade e permanência de habilidades, também precisamos reconhecer o papel da consolidação. Como afirmam os autores, “a recuperação, seja dormindo, cochilando ou simplesmente se afastando da prática física ou mental de excelente atuação, provavelmente será benéfica para a progressão geral das habilidades”.


A questão final que Farrow e Robertson consideram em sua estrutura é o tédio, que é um estado de aborrecimento devido à monotonia de um programa de treinamento. Para combater isso, os autores apelam ao famoso conceito de repetição sem repetição de Bernstein: “é inútil tentar praticar ou treinar de uma maneira pela qual o objetivo seja 'imprimir' um padrão de movimento específico, como através do uso de prática altamente monótona e repetitiva. Por isso, Bernstein argumentou que a prática deveria se concentrar em repetir os meios de resolver o problema, em vez de simplesmente tentar repetir a solução (em outras palavras, variedade sobre tédio)”.





Então, para resumir, a estrutura do SAP propõe desenvolver um plano de periodização para o treinamento de habilidades, retirando vários conceitos clássicos da literatura de aprendizagem motora. A carga de treinamento de habilidades pode ser definida nominalmente em termos do nível de representatividade ou complexidade das restrições impostas ao atleta e da quantidade de interferência contextual criada pela variabilidade no cronograma de treino. A progressão pode ser avaliada funcionalmente em termos do desafio colocado no executor, observando o seu sucesso de desempenho ao lidar com diferentes cargas de treinamento. A reversibilidade ou perda pode ser avaliada com testes de retenção e transferência. Finalmente, o aumento da variabilidade na prática à medida que o executor progride promoverá a repetição sem repetição e reduzirá o tédio.


Vamos reconsiderar tudo isso um pouco mais brevemente na segunda parte desse texto, em que analisaremos também para a segunda estrutura de periodização que foi proposta.


Esse texto é uma tradução da transcrição do episódio 168 do podcast do Rob Gray, Perception & Action. Todas as informações aqui contidas foram retiradas de forma integral do texto original.


Referências


Farrow D, Robertson S. Development of a Skill Acquisition Periodisation Framework for High-Performance Sport. Sports Med. 2017 Jun;47(6):1043-1054. doi: 10.1007/s40279-016-0646-2. Review. PubMed PMID: 27873190.

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