É hora de parar de olharmos de forma isolada para regiões do corpo em pacientes com dor muscular



Nesse mês de outubro foi publicado por Caneiro et al, na British Journal of Sports Medicine, um editorial sobre a necessidade de pararmos de focar somente em abordagens segmentadas por regiões do corpo, em casos de dor musculoesquelética. Pelo fato dessa linha de raciocínio ser mais difundida entre fisioterapeutas, tomei a liberdade de modificar  tradução de "clinicians" para "profissionais de saúde", com o objetivo de englobar todos os profissionais que participam de alguma forma da gestão de dores musculoesqueléticas. Segue a tradução completa do artigo:


A pesquisa clínica, a educação de pacientes e a prática do profissional de saúde geralmente abordam as condições de dor musculoesquelética com foco em regiões isoladas do corpo.  Esse foco em segmentos, como joelho, quadril, pescoço, dor no ombro e nas costas como entidades separadas, é acompanhado por guidelines clínicas e diretrizes específicas. Entretanto, as evidências mais recentes demonstram que os distúrbios da dor musculoesquelética são freqüentemente classificados como comorbidades, e compartilham perfis de risco biopsicossocial para dor e disfunção. Considerando esses aspectos, é necessária uma mudança para uma abordagem com o foco no indivíduo. Esta abordagem prática encorajará os profissionais de saúde a (1) focar no contexto dos pacientes e nos fatores biopsicossociais modificáveis que influenciam a sua dor e incapacidade; (2) educar o indivíduo para uma abordagem de gestão ativa (terapia direcionada para o exercício, praticar atividade física e estilo de hábitos mais saudáveis) e reduzir a dependência de intervenções passivas; (3) considerar procedimentos cirúrgicos baseados em evidências somente para aqueles com indicação clara, e onde as abordagens não-cirúrgicas baseadas em diretrizes tenham sido rigorosamente respeitadas.


Seis ações recomendadas para gerenciar uma pessoa com dor musculoesquelética, independentemente da região do corpo:


Para adotar uma abordagem ativa, centrada no indivíduo, no tratamento da dor musculoesquelética e incapacidade, os profissionais de saúde devem:


1) Realizar uma triagem de fatores biopsicossociais e comorbidades associadas a saúde


Os profissionais de saúde precisam se comunicar claramente com o paciente para identificar possíveis fatores biopsicossociais da dor e incapacidade, que irão se tornar metas terapêuticas. Isso inclui crenças dolorosas, emocionais e respostas de enfrentamento à dor, contexto social, condição física e fatores relacionados ao estilo de vida, além da presença de comorbidades. Os profissionais devem incorporar ferramentas de triagem musculoesquelética, como o questionário Orebro Musculoskeletal Pain Screening, para identificar barreiras de recuperação e objetivos de intervenção terapêutica.


2) Adote a comunicação centrada no paciente


Os profissionais de saúde devem usar questionamentos abertos e reflexivos para obter a compreensão do paciente sobre os fatores, incluindo (1) sua experiência de dor ("conte-me sua história"), (2) crenças causais (‘O que você acha é a causa da sua dor? '), (3) lidar ("O que você faz quando a dor aumenta?"), (4) impacto (‘Diga-me como seus sintomas afetou a sua capacidade de se envolver com atividades funcionais e físicas "), (5) preocupações ("Seus sintomas o preocupam?"), (6) crenças sobre o engajamento da atividade ("Por que você acha que não deve dobrar / levantar / correr? '), (7) fatores sociais ("Diga-me sobre sua casa / trabalho / vida social "), (8) objetivos ("Fale-me sobre seus objetivos") e (9) expectativas.


3) O que você acha que precisa alcançar seus objetivos?


Essa simples informação pode guiar um exame que explora as preocupações do paciente, suas limitações funcionais e as capacidades físicas ligadas aos seus objetivos. Uma comunicação que privilegia os resultados narrativos do paciente, auxiliam uma tomada de decisão compartilhada e efetiva sobre os riscos e benefícios potenciais de vários tipos de intervenções.


4) Eduque além das palavras usando o recurso ativo de abordagens de aprendizagem


Os profissionais de saúde devem adotar a educação do paciente como um aspecto central do atendimento ao paciente para transmitir informações baseadas em evidências, e para facilitar uma mudança comportamental. Isso envolve o uso de uma linguagem simples e clara para desconstruir mitos sobre a dor, achados de imagem (ressonância magnética e raios-x) e envolvimento do paciente nas atividades. Educação é um processo ativo que é aprimorado utilizando informações-chave, histórias do paciente, recursos e material didático. Os formatos e recursos que serão utilizados variarão de acordo com as preferências e o contexto do paciente. A aprendizagem comportamental, por meio de exercícios, pode ser usada para desconstruir crenças inúteis e construir uma auto eficácia em relação à segurança e benefícios do engajamento no movimento e atividade física.


5) Oriente para uma autogestão


Os profissionais de saúde devem capacitar os pacientes para participar de exercícios, atividades relevantes e um estilo de vida saudável com confiança. Uma autogestão ativa alivia a dor e melhora a função. Para alguns, essa transição pode ser fácil, enquanto para outros, isso pode refletir uma jornada por um longo período de tempo. Durante esse processo, o atendimento é personalizado para as necessidades individuais dos pacientes e podem incluir:  (1) cognições (ou seja, desenvolver uma mentalidade positiva e compreensão biopsicossocial de sua dor); (2) barreiras físicas à recuperação (isto é, modificação da carga de exercícios, exposição gradual e aderência a um programa de exercícios com uma dosagem adequada (intensidade e frequência), abordando deficiências físicas como fraqueza, mobilidade, prevenção de movimento e / tensão muscular protetora); e (3) fatores de estilo de vida (sono, atividade física regular, relaxamento, controle de peso, nutrição e interações sociais positivas). Profissionais devem incentivar os pacientes a aplicar as estratégias aprendidas no cotidiano e durante períodos de exacerbação dos sintomas e angústia. Sessões de reforço podem ser necessárias durante esse processo. Profissionais devem ensinar os pacientes a se auto-monitorar e progredir em seu próprio programa. Estas estratégias podem ajudar os pacientes a desenvolver auto-eficácia e desenvolver estratégias sustentáveis de autogestão, alinhadas com o seu contexto, preferências e objetivos.


6) Aborde fatores de saúde relacionados a comorbidade


Os profissionais de saúde devem procurar um atendimento em conjunto na presença de queixas de saúde física e mental, como níveis elevados de estresse emocional, distúrbios alimentares (comer demais e comer de menos) e diabetes tipo 2. Entretanto, cuidados multidisciplinares precisam ser integrados, com mensagens consistentes em toda a equipe para evitar o sofrimento do paciente.



Referência


Caneiro, J. P., Roos, E. M., Barton, C. J., O’Sullivan, K., Kent, P., Lin, I., … O’Sullivan, P. (2019). It is time to move beyond “body region silos” to manage musculoskeletal pain: five actions to change clinical practice. British Journal of Sports Medicine, bjsports–2018–100488. doi:10.1136/bjsports-2018-100488

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