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O texto a seguir é uma tradução de um artigo publicado na JOSPT, em agosto desse ano. Link para o artigo original.

Postura é um tópico frequente de discussão entre pacientes, profissionais de saúde, mídia e sociedade. Existe uma crença comum é que a dor na coluna é causada por sentar, ficar em pé ou dobrar “incorretamente” a coluna. Apesar da ausência de fortes evidências para apoiar essas crenças comuns, uma grande indústria entorno da postura cresceu, com muitas intervenções, técnicas e produtos que reivindicam “corrigir” a postura para prevenir a dor. Infelizmente, muitos profissionais de saúde prestam aconselhamento de acordo com essa perspectiva não baseada em evidências. Nesse ponto de vista, refletimos sobre essas crenças comuns que existem em relação à saúde da postura e da coluna vertebral e por que elas são tão amplamente adotadas.

Crenças Sobre A Postura

Os profissionais de saúde e a sociedade, de maneira geral, concordam que evitar a flexão da coluna é a forma mais segura de sentar e abaixar-se. Normalmente é aconselhado às pessoas, sejam com dor ou não, a sentar-se ou realizar tarefas em pé fazendo a manutenção de uma postura lordótica “natural”. As diretrizes de manuseio manual nos Estados Unidos e no Reino Unido defendem as costas eretas ou uma leve inclinação das costas durante tarefas de levantar um objeto. Uma postura levemente lordótica também é comumente identificada como a posição ideal para ficarmos de pé. Os principais argumentos são que a manutenção dessas posturas protege as estruturas da coluna vertebral, e que sentar, ficar em pé e flexionar são frequentemente os provocadores de dor lombar. Posturas estranhas e levantar cargas pesadas pode precipitar episódios de dor lombar aguda, e algumas associações entre a levantar peso e lesão na lombar têm sido relatadas. Apesar das crenças generalizadas sobre a postura “correta”, não há evidências fortes de que evitar uma postura “incorreta” evite dores lombares ou que qualquer curvatura da coluna específica esteja fortemente associada à dor.

A proteção da coluna também é defendida pela indústria do fitness. Os conselhos mais comuns são que os músculos do “core” devem ser ativados conscientemente para manter uma postura “correta” e proteger a coluna. Embora exista um esforço muscular adicional necessário para a postura correta ao sentar-se e levantar-se, não há evidências que sugiram que a postura correta previna ou reduz a dor e a incapacidade. Entretanto, as evidências apontam que pessoas com dor lombar já flexionam menos a coluna e mostram mais atividade muscular do tronco quando inclinam para frente e levantam um objeto do chão. Assim, a noção de que pessoas com dor lombar precisam ser cuidadosas e que devem “proteger” a sua coluna vertebral é ainda mais desafiada pela associação que existe nessa população entre maiores níveis de medo e uma menor auto-eficácia em relação uma maneira segura de se mover.

A perspectiva não baseada em evidências de que a dor pode ser evitada, evitando uma “postura incorreta”, é reforçada por mensagens negativas na grande mídia. As pessoas podem ficar preocupadas com a saúde da coluna vertebral quando expostas a artigos sobre posturas que são potencialmente perigosas e anúncios de promessas de correção postural. A promoção da “postura ideal” também é reforçada por estereótipos antigos que sugerem que a postura reflete o sexo, a dignidade, a respeitabilidade, atratividade e moralidade de uma pessoa.

Avaliando Postura Em Pessoas Com Dor

Observar a postura de uma pessoa que apresenta dor musculoesquelética tem um papel. Pode ajudar os pacientes a sentir que estão sendo levados a sério e permitir que o terapeuta identifique casos raros de deformidade postural que sejam clinicamente relevantes, como uma escoliose significativa e deteriorada. É importante ressaltar que o profissional pode observar posturas excessivamente protetoras, níveis de tensão muscular, apreensão, vigilância, angústia, humor e imagem corporal que podem fornecer informações sobre respostas comportamentais e como as pessoas entendem a experiência da dor. É fortemente encorajado a construção de um relacionamento com os pacientes para explorar por que eles adotam certas posturas. Embora existam evidências de que pessoas com dor lombar possam sentir que algumas posturas provoquem dor, não se pode concluir que as posturas sejam a causa da dor.

Avaliando Postura Em Pessoas Sem Dor

Não há evidências para apoiar a triagem de postura ou do movimento para uma prevenção primária da dor. As pessoas vêm em diferentes formas e tamanhos, com variação natural nas curvaturas da coluna vertebral. O estilo preferencial de levantar algo do chão e a adaptabilidade da postura são influenciados pelas curvaturas da coluna vertebral. As avaliações ergonômicas em escritórios aos quais as pessoas sem dor são frequentemente submetidas podem perpetuar um equívoco de que tarefas diárias comuns e ambientes de trabalho são perigosos.

“Cuidado Com A Postura! “: Cuidado Com A Sua Linguagem!

A natureza iatrogênica da dor lombar é um lembrete da responsabilidade do clínico para estar atento ao idioma que utiliza. Os conselhos dados pelos profissionais de saúde podem levar ao medo e incentivar a hipervigilância. Aqui estão alguns exemplos:

 “Sente-se direito” –  Na ausência de boas evidências de que exista uma postura para evitar a dor, pedir aos pacientes que se esforcem para alcançar uma “postura correta” pode configurá-los para uma sensação de falha e criar mais ansiedade quando a dor persistir.

“Sentar é ruim para você” – Incentivar as pessoas a se movimentarem e mudarem de posição pode ser útil. Estilos de vida sedentários são um fator de risco para dor lombar, entre muitas outras condições de saúde. No entanto, é importante que os profissionais de saúde não perpetuem a preocupação de que sentar por mais de 30 minutos em uma posição seja perigoso ou que sempre deva ser evitado.

“Isso é causado pela sua postura errada” – Existe alguma resistência no setor de saúde para afastar-se do modelo biomédico da dor. Consequentemente, a dor é frequentemente atribuída a variações e assimetrias relativamente “normais”, apesar da falta de fortes evidências. É orientado que os profissionais de saúde sejam cautelosos em suas explicações para evitar mais preocupações com as “falhas” da postura.

Recomendações Clínicas: Ajude As Pessoas A Se Sentarem, Ficarem Em Pé E Se Moverem Mais

Evidências apontam que ajudar as pessoas a adotar posturas mais relaxadas, assegurando-as de que essas posturas são seguras, pode proporcionar alívio dos sintomas. Posturas confortáveis variam entre os indivíduos, por isso é útil explorar diferentes posturas. O profissional pode considerar estratégias sobre como expor as pessoas a posturas e formas de se mover que elas normalmente evitam, e como incentivar a mudança dos hábitos que podem ser provocativos. Porém, alterações na postura ou em movimentos que auxiliem no estágio agudo da dor podem não ser necessários a longo prazo.

Algumas pessoas que consideram posturas eretas provocativas podem ser obrigadas a adotar essa postura em relação ao seu esporte / função (por exemplo, bailarinos e militares). Entretanto, é possível as pessoas adotar uma postura ereta e ainda assim, relaxada, sem esforço adicional desnecessário. Se os profissionais ajudarem as pessoas a ter uma postura ereta e relaxada, pode ser benéfico – e até mesmo modificador de sintomas! Embora a postura possa ser necessária para o esporte / função, pode não ser necessária para a saúde da coluna vertebral e, como tal, pode não precisar ser transferida para outros aspectos da vida.

Recomendações Para Além da Clínica

Existem desafios em reformular a idéia de postura “correta”. A ciência não apóia as suposições sobre uma postura comum ideal e as crenças sobre o “core”, muitas vezes mantidas por profissionais de saúde e pela sociedade. Quarenta anos atrás, era uma prática comum recomendar repouso na cama para pessoas com dor lombar. A educação persistente baseada em evidências significa que o repouso no leito não é mais uma recomendação apropriada.

Vamos trabalhar juntos para mudar a “narrativa da postura”. A coluna vertebral é uma estrutura resiliente e adaptável em que se pode confiar. As discussões sobre saúde e dor na coluna vertebral com colegas de profissão, pacientes e pessoas sem dor também devem incluir outros fatores baseados em evidências, como níveis de atividade física, estresse e sono. Uma campanha educacional para mudar a narrativa da postura pode encontrar resistência em certas áreas da fisioterapia, treinamento e das profissões ergonômicas, cujos modelos de negócios podem não estar alinhados com o que entendemos agora como a melhor prática para o tratamento da dor lombar.

A seguir, alguns outros pontos-chave sobre evidências relacionadas à postura da coluna vertebral:

1- Não existe postura “correta”. Apesar das crenças comuns sobre postura, não há fortes evidências científicas de que exista uma postura ideal ou que evitar posturas “incorretas” previna a dor nas costas.

2- As diferenças nas posturas são um fato da vida. Existem variações naturais nas curvaturas da coluna vertebral, e não há uma única curvatura da coluna vertebral fortemente associada à dor. A dor não deve ser atribuída a variações relativamente “normais”.

3- Postura reflete crenças e humor. A postura pode oferecer insights sobre as emoções, pensamentos e imagem corporal de uma pessoa. Algumas posturas são adotadas como estratégia protetora e podem refletir preocupações quanto à vulnerabilidade corporal. Entender os motivos por trás das posturas preferidas pode ser útil.

4- É seguro adotar posturas mais confortáveis. Posturas confortáveis variam entre os indivíduos. A exploração de diferentes posturas, incluindo aquelas frequentemente evitadas, e a mudança de posturas habituais podem proporcionar alívio dos sintomas.

5- A coluna é forte e confiável. A coluna é uma estrutura forte e adaptável capaz de carregar e se mover com segurança em uma variedade de posturas. Advertências comuns para proteger a coluna não são necessárias e podem levar ao medo.

6- Sentar não é perigoso. Sentar-se por mais de 30 minutos em uma posição não é perigoso, nem deve ser sempre evitado. No entanto, mover e mudar de posição pode ser útil, e ser fisicamente ativo é importante para a sua saúde.

7- Uma forma não serve para todos. A avaliação postural e do movimento não previne a dor no local de trabalho. O modo como nos levantamos ou levantamos um objeto são influenciados pelas curvaturas variadas e naturais da coluna, e o conselho para adotar uma postura específica no ato do movimento ou sustentar o “core” não é baseado em evidências científicas.

 

Referência:

Slater D, Korakakis V, O’Sullivan P, Nolan D, O’Sullivan K. “Sit Up Straight”: Time to Re-evaluate. J Orthop Sports Phys Ther. 2019 Aug;49(8):562-564. doi: 10.2519/jospt.2019.0610. PubMed PMID: 31366294.

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