Gym fitness center with young man working out the legs

A sobrecarga é um princípio fundamental do treinamento – a carga deve exceder a capacidade para melhorar o desempenho. Aumentos pequenos e sistemáticos na carga que são ligeiramente maiores que a capacidade do atleta melhorarão a tolerância a cargas adicionais. Entretanto, se a carga aplicada exceder em muito a capacidade de carga, então, a tolerância do tecido será excedida e poderá ocorrer lesão. Esse comentário clínico publicado por Tim Gabbet, no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, aborda considerações fundamentais para os profissionais de reabilitação ao ajudarem um atleta a se preparar para as exigências da competição.

Perguntas Clínicas: Quanto? Quão rápido? Quanto tempo?

Os profissionais de medicina esportiva tem como objetivo maximizar as adaptações positivas ao treinamento e de minimizar as negativas – treinamento demais pode resultar em fadiga excessiva; treinamento de menos pode significar que os atletas estão despreparados para a competição. Claramente, existe um equilíbrio entre fornecer um estímulo de treinamento adequado para obter benefícios de desempenho e ao mesmo tempo minimizar o risco de lesões. Como os profissionais podem determinar em que extensão o treinamento é demais? Após a lesão, em quanto tempo as cargas de treinamento podem ser progredidas? Com que rapidez os atletas podem retornar à competição?

O “Chão”, o “Teto” e o “Tempo”

Ao desenvolver programas de reabilitação ou desempenho, três conceitos-chave são cruciais: o “chão”, o “teto” e o “tempo”. O “chão” representa a capacidade atual do atleta, enquanto o “teto” representa a capacidade necessária para executar as atividades específicas do esporte. É possível fazer um atleta progredir com segurança do “chão” ao “teto”, desde que seja concedido a ele (a) o “tempo” suficiente.

Os Desafios de Acertar na Pré-Temporada

Um desafio na maioria dos ambientes esportivos é o tempo necessário para avançar do “chão” ao “teto”. Se as cargas de treinamento dos atletas progridem muito rapidamente, elas estarão em um crescente risco de lesão. Esse cenário ocorre com muita frequência. Considere os atletas que entram em um campo de treino em um período de tempo muito curto desde que sofreram uma lesão (ou em um período de pré-temporada). Se a lacuna entre a capacidade atual e a capacidade necessária for grande, a única maneira de progredir do “chão” ao “teto” é aumentar rapidamente a carga de treinamento para garantir que os atletas estejam preparados para o primeiro jogo da competição ou para voltarem a jogar. Não obstante, o fato de atletas com menores capacidades físicas e disfunções musculoesqueléticas apresentarem maior risco de lesão, o treinamento dessa maneira está associado a um alto risco de lesão e baixo desempenho. Os treinadores podem levar mais tempo para fazer progredir com segurança para cargas de treinamento mais altas e preparar os atletas para o “teto”, mas os eles não têm um “tempo” infinito. Da mesma forma, se um estímulo de treinamento inadequado for aplicado, o atleta corre o risco de ficar despreparado, com desempenho insatisfatório e com maior probabilidade de recorrência de lesão.

 

Como Ajudar os Atletas a Progredir com Segurança do “Chão” para o “Teto”?

As demandas do desempenho da elite estão em constante evolução; em geral, a complexidade e as capacidades físicas necessárias estão aumentando a cada ano. A redução das demandas do “teto” não é uma opção realista para ajudar os atletas a evitar lesões e ter um bom desempenho. Uma opção é levar mais “tempo” para preencher a lacuna entre o “chão” e o “teto”, contudo a maioria dos treinadores ficará pouco impressionada se seus melhores atletas não estiverem em forma o suficiente para competir no primeiro jogo da temporada, ou se passarem longos períodos de tempo em reabilitação (Figura 1C). E se pudéssemos “comprar” mais “tempo” antes do início oficial da pré-temporada? Se os atletas realizassem um volume mínimo de treinamento antes de retornar de um intervalo prolongado, isso teria o efeito de aumentar artificialmente a duração do período de pré-temporada, minimizando o efeito da falta de treinamento induzido pelo período fora da temporada, garantindo assim que a progressão para o “teto” fosse gradual e sistemática.

Atletas em progressão, em qualquer nível de desempenho, do “chão” ao “teto”, são situações ainda mais complicadas quando o atleta retorna ao treinamento de pré-temporada em um estado severamente descondicionado ou após uma cirurgia fora da temporada. Nesses exemplos, a capacidade atual do atleta é inadequada para sustentar cargas normais de treinamento; ao invés de ter um “chão” adequado, sua capacidade é mais como “o porão”! (Figura 1E). Essa situação também pode ocorrer quando os atletas estão lesionados; a capacidade local do tecido pode diminuir imediatamente, resultando em uma redução no “chão”. Nesse sentido, com a mesma quantidade de “tempo”, o progresso do atleta de sua capacidade atual para o “teto” exigiria mudanças rápidas na carga de treinamento – e por sua vez, aumentando o risco de lesões.

Outra solução para garantir que os atletas progridam com segurança do “chão” ao “teto” é elevar o “chão” (Figura 1F) – garantindo que quando fizerem uma pausa prolongada ou entrarem na reabilitação, eles não permitam que sua capacidade física caia no “porão”. O benefício de elevar o chão é que isso também oferece aos atletas a oportunidade de desenvolver maior capacidade de carga do que anteriormente poderia ter sido possível (talvez chegando à “cobertura”!) (Figura 1F). A preparação para atividades esportivas envolve gerenciamento, monitoramento e manipulação da carga de treinamento durante todo o ano, com o entendimento de que o “teto” é como um ‘alvo em movimento ‘ – diferentes capacidades exigirão o desenvolvimento que dependem da fase específica da temporada, e de fatores que limitam o desempenho de atletas individuais.

O Que a Equipe de Reabilitação e Desempenho Pode Fazer para Ajudar os Atletas a Alcançar Seus Objetivos de Desempenho?

Os atletas participam de esporte por vários motivos, que podem diferir entre os competidores de elite e não de elite. Seja competindo em nível de elite ou não, os atletas se esforçam para melhorar continuamente e para alcançar seus melhores desempenhos pessoais. Para obter desempenhos de alto nível, a capacidade de carga dos atletas deve ser adequada para atender às demandas exigidas pela competição. Os atletas não podem desempenhar suas atividades se a capacidade atual estiver bem abaixo da capacidade exigida pelo esporte. Da mesma forma, os atletas não podem desempenhar sua atividade se estiverem lesionados. Pegando os conceitos do “chão”, do “teto” e do “tempo”, existem pelo menos 5 maneiras simples de reabilitação e desempenho para que a equipe possa minimizar o risco de lesões e dar aos atletas a melhor chance de alcançar seus objetivos de desempenho.

Cinco Maneiras de Garantir que os Atletas Estejam Bem Preparados para as Demandas da Competição04

  1. Mantenha uma carga de treinamento adequada durante o período fora da temporada e enquanto estiver lesionado. Colocar carga durante esses períodos eleva o “chão” (ou alternativamente garante que os atletas evitem o “porão”) e melhora a capacidade dos atletas de tolerar a carga durante a pré-temporada e no retorno à competição.
  2. Identifique o “teto” e garanta que a carga de treinamento seja proporcional às demandas da competição. Várias metodologias (incluindo o uso de sensores inerciais e de vídeo) são usadas para avaliar as demandas específicas do esporte exigidas no “teto”. Isso pode incluir (mas não está necessariamente limitado a) intensidades de pico de corrida, períodos mais longos de bola no jogo, corrida repetida e atividade de esforço repetido. Se a tecnologia cara não estiver disponível, os profissionais são incentivados a acessar a literatura específica do esporte para atualizar seus programas de treinamento. As capacidades de carga individuais e as demandas absolutas de competição serão diferentes entre atletas de elite e não-elite, adulto e adolescente, e homens e mulheres; as demandas de treinamento também devem refletir essas diferenças.
  3. Avalie as diferenças individuais na tolerância ao treinamento entre os atletas. Atletas muito jovens e mais velhos, e aqueles com um longo histórico de lesões, com histórico de treinamento pobre, com deficiências musculoesqueléticas, com menor força e menor condicionamento aeróbico podem ter menor tolerância a aumentos rápidos na carga de treinamento. Além disso, outros fatores físicos (por exemplo, biomecânicos, padrões de movimento) e psicossociais (por exemplo, emocional, estilo de vida) podem afetar a capacidade de carga. Pode ser tentador aumentar rapidamente as cargas de treinamento em atletas menos aptos e naqueles com deficiências musculoesqueléticas. No entanto, esses são os atletas com menor probabilidade de tolerar esse tipo de progressão de treinamento e, por sua vez, com maior probabilidade de sofrer lesões em resposta a esse padrão de carga. Juntamente com progressões de carga graduais, é necessária uma avaliação abrangente das capacidades específicas do esporte (por exemplo, força, condicionamento aeróbico) e capacidades específicas do tecido (por exemplo, musculoesqueléticas) para garantir que as cargas de treinamento progridam individualmente. É aqui que os fisioterapeutas e profissionais de Educação Física desempenham um papel crucial.
  4. Identifique e prepare-se para as passagens mais exigentes do jogo. Treinar para as demandas médias da competição pode significar que os atletas estão despreparados para o “pior cenário”. Isso pode desencadear pelo menos duas consequências: (1) os atletas ficam incapazes de executar as tarefas de alta intensidade que frequentemente determinam o resultado da competição, e (2) ficam com maior risco de lesão ao tentarem realizar essas atividades.
  5. Os programas de treinamento necessitam de uma compreensão das (1) demandas físicas do esporte, (2) das capacidades físicas necessárias para a realização dessas atividades e (3) dos fatores que limitam o desempenho individualmente. Os treinadores devem considerar e planejar a quantidade apropriada de tempo necessária para progredir do “chão” ao “teto”. A resiliência advinda do treinamento leva tempo, e diferentes capacidades físicas se adaptam a taxas diferentes. Aumentos progressivos, graduais e sistemáticos na carga de treinamento permitem que os atletas progridam com segurança até o “teto”, reduzindo o risco de lesões, melhorando a disponibilidade e aprimorando o desempenho.

Resumo: Do Risco à Resiliência

As cargas de treinamento podem ter efeitos positivos e negativos. O risco de lesão aumenta com mudanças rápidas na carga de treinamento. No entanto, nem toda carga de treinamento é ruim – quando prescrita adequadamente, pode criar atletas resilientes, capazes de suportar as altas cargas da competição e de prosperar nas passagens mais exigentes do jogo. O aumento sistemático das cargas de treinamento e a identificação de fatores relacionados à tolerância à carga, não apenas reduzem o risco de lesões, mas permitem que os atletas progridam para cargas de treinamento mais altas, típicas daquelas necessárias para performances de elite. É importante ressaltar que uma vez que os atletas atinjam essas altas cargas de treinamento, eles  têm o risco de lesões reduzido, e têm maior probabilidade de atingir suas metas de desempenho – acrescentar cargas permite que os atletas suportem mais cargas!

gabbet

Figura 1

 

Referência:

Gabbett, T. J. (2019). How Much? How Fast? How Soon? Three Simple Concepts for Progressing Training Loads to Minimize Injury Risk and Enhance Performance. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 1–9. doi:10.2519/jospt.2020.9256

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