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O que você vê é afetado pelo que você sabe, pelo que você ouve, pelo que toca, e vice-versa. Isso acontece porque o cérebro é muito complexo e interconectado, e todas as diferentes partes do cérebro integram e compartilham informações adquiridas de qualquer fonte – olhos, ouvidos, tato, memórias, previsões, expectativas, Facebook, etc.

Portanto, o que você saboreia é afetado pelo que você vê; o que você sente é afetado pelo que você pensa; o que você ouve é moldado pelo que você sabe. Frequentemente achamos que a dor está relacionada apenas com “problemas nos tecidos”, mas na verdade outras fontes de informações sobre o estado do corpo também são importantes. Está tudo conectado.

Atualmente estou lendo um ótimo livro de Robert Kurzban chamado “Por que todos (os outros) são hipócritas”. O título é um pouco enganador, porque o livro não é tão voltado para explicar porque as pessoas mentem, mas é mais para lidar com implicações da teoria modular da mente. Kurzban é um psicólogo evolucionista, e uma das principais afirmações teóricas dessa área é que a mente é modular, o que significa que ela evoluiu para ter certas competências específicas, o oposto de uma inteligência geral de resolução de problemas para todos os fins.

Essa ideia é mais obviamente compreendida em referência a seres que são muito menos inteligentes do que o ser humano, como as aranhas. As aranhas são basicamente gênios arquitetônicos, quando se trata de construir teias, e também são muito boas em resolver problemas relacionados a obter comida, evitar predação, e encontrar parceiros. Mas fora desses contextos específicos, elas não são tão inteligentes.

Então a seleção natural equipa os seres vivos com competências cognitivas específicas relacionadas à sobrevivência e procriação, não com uma inteligência geral para todos os fins. Neste sentido, a mente pode ser vista como um smartphone com vários aplicativos, ou como um canivete suíço com ferramentas separadas. Os humanos têm muito mais poder de computação e aplicativos à sua disposição do que as aranhas, mas é o mesmo sistema operacional modular básico, e é por isso que somos gênios incríveis em certas áreas, como controle motor e linguagem (onde superamos qualquer computador), e não tão fortes em outras, como cálculo matemático (onde somos envergonhados por calculadoras simples).

A interessante reviravolta de Kurzban sobre essa ideia é que os diferentes módulos não necessariamente compartilham informações entre si. Eles frequentemente trabalham de forma independente, e erros em uma área não podem necessariamente ser corrigidos por informações mais precisas em outra. Ele usa duas ilusões visuais comuns para ilustrar.

O que os pontos nesta foto mostram?

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Se você ainda não sabe a resposta, você pode lutar por alguns minutos antes de “ver” o dálmata. Assim que você sabe o está na imagem, você pode vê-lo quase imediatamente, e na verdade fica difícil “não ver” também. De acordo com Kuzban, isso significa que um módulo consciente no cérebro compartilhou informações sobre a imagem com um módulo de processamento visual, e isso afetou sua computação e, portanto, sua percepção da imagem. Por razões semelhantes, é por isso que o vinho tem um sabor melhor quando achamos que é caro, e a dor dói mais quando achamos que ela é causada por um grande dano ao corpo, em oposição a algum processo de cura inócuo. Mas o compartilhamento de informações “de cima para baixo” nem sempre alterará sua percepção.

Considere a ilusão do tabuleiro de xadrez. Quadrados A e B são na verdade da mesma cor!

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Há um módulo de processamento visual que processa uma tonelada de informações para te dar essa percepção (incorreta). Ele considera a localização do cilindro, a sombra que ele projeta, a regularidade dos quadrados no tabuleiro de xadrez. Com base em todo esse cálculo, ele “decide” que os quadrados são de cores diferentes e, portanto, você os vê dessa forma. Você nunca recebe os “dados brutos”, o conjunto de suposições, ou o processo de pensamento que levou a essa conclusão. Você só recebe o produto final – uma imagem mental mostrando os quadrados com a mesma cor.

E curiosamente, seu conhecimento consciente de que os quadrados NÃO são de fato da mesma cor não faz nada para mudar sua percepção. Diferente da imagem do dálmata, o conhecimento consciente não é usado pelo módulo de processamento visual para tornar sua percepção mais precisa. Então a ilusão permanece. De acordo com Kurzban, isso é uma evidência de que o trabalho feito pelos módulos é frequentemente bastante independente, imune à correção ou talvez até à entrada de outros módulos que saibam mais.

 (Isto é parte do motivo para Kurzban achar que podemos ser hipócritas – há um módulo de relações sociais no cérebro – um orador público – cuja prioridade e função são lhe dar alto status social. Ele não se importa realmente ou talvez nem saiba sobre as informações localizadas em outros módulos da mente, que provam que você não é tão inteligente, moral ou inocente como afirma em público. A separação dos módulos cria uma “ignorância estratégica”).

Agora considere essa ideia no contexto da dor. Às vezes nosso conhecimento e processos de pensamento consciente sobre o corpo afetará como uma parte do corpo é sentida. Se você pensar que uma parte do corpo está quebrada, degenerada, desintegrando-se, instável, isso pode piorar a dor. E se pensarmos que nosso corpo é robusto, forte e capaz, isso pode nos fazer sentir melhor. Esta é a percepção multimodal – o compartilhamento de informações entre os diferentes módulos. Isso explica porque, na imagem do dálmata, o conhecimento consciente sobre o significado da imagem afetou nossa percepção.

Mas a dor infelizmente às vezes é mais como a ilusão do tabuleiro de xadrez – imune á lógica.  As pessoas muitas vezes têm dor em áreas onde não há nenhum dano, e às vezes em áreas onde não há sequer partes do corpo! Ter conhecimento consciente sobre esses fatos às vezes não pode afetar a percepção. Em termos de módulos, poderíamos dizer que o módulo da dor simplesmente não está muito interessado em ouvir informações corretivas dos módulos cognitivos. Ele foi desenhado para ser estrategicamente ignorante sobre suas conclusões. Isso é frustrante, mas acho que é uma maneira teórica interessante de olhar para o problema da dor tendo “uma mente própria”. Se o módulo da dor não vai “escutar” os módulos mais cognitivos, quais módulos poderiam ser melhores para falar sua “linguagem”?

Os módulos de movimento seriam os primeiros na minha lista.

 

Esse foi mais um texto traduzido de Todd Hargrove (sim, sou fã). Você pode conferir o original aqui.

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