Xray-Image-of-Disk-Degeneration

A neurociência da dor é uma área de estudo que vem sendo alvo de muito interesse atualmente. Esse texto é uma tradução de uma publicação escrita por Lars Avemarie, personal trainer e fisioterapeuta, e entusiasta no estudo da dor.

Você pode conferir o original aqui.

Boa leitura!

Pedro Emerson.

Assim como outros profissionais de saúde, e as pessoas leigas, eu acreditava que a dor somente era causada por uma lesão, ou bloqueios articulares, desalinhamentos, músculos fracos ou tensos, rupturas discais, postura errada e alterações degenerativas.

Muitas pessoas também acreditam que a dor significa que alguma coisa está errada no corpo, no local aonde sentem as dores. Essa crença é baseada no que é chamado popularmente de modelo “Cartesiano” da dor, apresentado pelo filósofo Descartes há quase 350 anos. Descartes escreveu em seu livro, Treatise of Man: “A partícula da chama brota do fogo, toca o dedo do pé, move a medula espinhal até um pequeno sino sair no cérebro e dizer: ‘Ouch. Isso machuca.”

Descartes-Reflex-Drawing

Imagem 1: O reflexo de Descartes

Isso está intimamente relacionado com o que aprendemos ao longo da nossa infância; isto é, a dor sempre tem uma causa clara. Nós batemos nosso dedo do pé, e o resultado é um dedo dolorido. Nós caímos e machucamos nosso joelho, então sentimos dor no joelho. Esta é uma resposta natural, e também é bom, porque nos faz proteger a área lesada e tentar evitar machucá-la mais. Isso nos faz agir e promover a cura através do descanso (1).

Isso também leva as pessoas a concluir que, se tiverem dor, é porque elas apresentam danos nos tecidos, músculos, tendões ou articulações. Infelizmente, esta conclusão às vezes é errada, especialmente quando a dor dura mais do que o tempo de cura normal. Tanto as pesquisas sobre dor como sobre a neurociência nos mostram que, quando você tem dor, tem menos a ver com o estado atual do seu tecido e mais a ver com o cérebro e o sistema nervoso (2).

Francamente, a dor não é tão simples quanto a maioria das pessoas, e até alguns profissionais de saúde, pensam. A dor é uma experiência multifatorial que é produzida por múltiplas influências e fatores (1). A dor não é simplesmente uma sensação causada por uma lesão, inflamação no corpo ou dano tecidual (1).

Lesões muitas vezes prejudicam porque ativam receptores específicos no corpo chamados nociceptores. Nociceptores são neurônios especializados que nos alertam para estímulos potencialmente prejudiciais; eles detectam extremos em temperatura, pressão e compostos produzidos por uma lesão. Um nome não-técnico para eles é “receptores de perigo”.

Pesquisas recentes nos mostraram que você realmente pode ter dor no corpo sem que nada esteja errado na área dessa dor. Assim como você também pode ter “danos” e as chamadas alterações degenerativas no corpo sem qualquer dor.

Como eu vejo, existem quatro possibilidades:

  • Dano e dor no tecido
  • Não ter danos nos tecidos e sem dor
  • Ter dor, mas nenhum dano tecidual
  • Ter danos nos tecidos, mas sem dor

As duas primeiras possibilidades são aquelas que quase todos dão por certo, enquanto as duas últimas possibilidades são muitas vezes esquecidas. No entanto, estes dois últimos são muito importantes para se lembrar. Se você tem dor por três a seis meses, geralmente ela é classificada como dor crônica. Este tipo de dor muitas vezes tem mais a ver com o seu sistema nervoso e cérebro do que com a condição real do tecido.

Neste artigo, analisaremos a última possibilidade – ter danos nos tecidos sem dor. Há muitas pessoas que caminham com dor no joelho, nas costas ou no ombro, o que reduz drasticamente a capacidade de serem ativos ou viver uma vida normal. Curiosamente, também há muitas pessoas que têm algum “dano” significativo em seu corpo, também conhecido como alterações degenerativas, mas sem sintomas ou dor.

Alguns exemplos das pesquisas incluem:

  • Pesquisadores que examinaram a RM da área da coluna vertebral dos participantes do estudo, descobriram que 80% dos participantes sem sintomas ou dor poderiam ser diagnosticados com uma protrusão de disco leve ou uma hérnia de disco na coluna lombar e 38% dos participantes tinham duas ou mais dessas mudanças degenerativas (3).
  • As ressonâncias magnéticas retiradas dos ombros de participantes que não apresentavam sintomas nem dor mostraram que 34% deles apresentavam danos no manguito rotador. Isso aumentou para 54%, quando os pesquisadores examinaram apenas pessoas acima de 60 anos (4).
  • Pesquisadores descobriram que 37% dos pacientes em uma clínica de emergência (que estavam alertas, racionais e coerentes) não sentiam dor no momento da lesão. A maioria desses pacientes relatou dor dentro de uma hora de ferimento, mas alguns pacientes relataram atrasos de até nove horas ou mesmo mais. Em pacientes com lacerações, cortes, escoriações e queimaduras, 53% tiveram um período de tempo sem dor e, mesmo no grupo de pacientes com fraturas, entorses, hematomas, amputação de um dedo, feridas e esmagamento, 28% foram através de um período sem dor (5).
  • Em um grupo de participantes em outro estudo, 20% a 57% apresentaram diferentes tipos de alterações degenerativas, como hérnia discal ou estenose espinhal, variando de acordo com a idade. A incidência também mostrou aumentar com a idade (6).
  • Em um estudo de pessoas com sintomas clínicos de artrose do joelho, 76% foram encontrados com danos meniscais sem nenhum sintoma ou dor (7).
  • Em uma nova revisão sistemática da degradação da coluna vertebral, os pesquisadores determinaram que as alterações degenerativas poderiam ser vistas como uma parte normal do envelhecimento e que são comuns em indivíduos sem dor (8).
  • Quando os ombros de indivíduos em um estudo foram fotografados por ultrassom, os pesquisadores encontraram “anormalidades” em 96% deles; novamente sem sintomas ou dor (9).
  • Em um editorial publicado no British Journal of Sports Medicine, um professor de medicina do esporte afirmou que danos de menisco degenerativos (no joelho) devem ser consideradas como “rugas com a idade” (10).
  • Um estudo transversal de ressonâncias magnéticas feitas nas espinhas cervicais de 1.211 participantes entre 20 e 70 anos encontrou que 87,6% delas apresentaram um abaulamento discal. Para os participantes de 20 anos, 73,3% dos homens e 78,0% das mulheres apresentaram abaulamentos discais; novamente sem dor (11).

Disk-and-Fascia-Degeneration

Imagem 2: Incidência de degeneração espinhal em pessoas assintomáticas (8)

Se olharmos mais de perto os dados da “Systematic Literature Review of Imaging Features of Spinal Degeneration in Asymptomatic Populations” (8), iremos reparar que 60% das pessoas com 40 anos de idade apresentam degeneração discal, 50% têm um abaulamento disca , 33% apresentam protrusões, 18% apresentam degeneração das facetas e 8% têm espondilolistese. No entanto, nenhuma delas apresenta sintomas ou dor.

A incidência aumenta dramaticamente quando consideramos dados para pessoas com 80 anos de idade. Aqui, os dados mostram que 96% têm degeneração discal, 84% apresentam um abaulamentos, 43% apresentam protrusões do disco, 83% apresentam degeneração das facetas e 50% possuem espondilolistese. Ainda assim, nenhum desses grupos apresenta sintomas ou dor.

Todos os participantes e pacientes nos estudos que destaquei anteriormente – com exceção do documento sobre pacientes na clínica de emergência (5) – tinham todo tipo de coisas “erradas” em seu corpo, mas nenhum deles sentiu dor.

Como isso pode ser possível? Por que o ombro do seu tio dói quando o manguito rotador está distendido, enquanto as pessoas nesses estudos não tinham dor? E por que a sua dor volta quando trabalha no jardim, enquanto todas essas pessoas podem ter alterações degenerativas sem sentir dor? E o idoso que sofre artrite em ambos os joelhos, mas apenas o esquerdo dói? A resposta é que a dor está longe de ser tão simples quanto acreditamos.

O que a pesquisas mais recentes da dor dizem e o que podemos aprender nos últimos 30 anos de pesquisa sobre a experiência da dor? Uma declaração feita pelo líder mundial em pesquisa da dor, Professor Lorimer Moseley, serve como uma porta de entrada para esta nova área de pesquisa. Moseley é professor de Neurociência Clínica da South Australia University e está na vanguarda da investigação da dor. Seus numerosos estudos científicos aumentaram amplamente nossa compreensão sobre o que é a dor e o que não é. Moseley diz que “a dor é uma experiência consciente desagradável que emerge do cérebro quando a soma de toda a informação disponível sugere que você precisa proteger uma determinada parte do seu corpo”.

A dor é, portanto, a soma do seu contexto ambiental (por exemplo: um ambiente calmo ou estressante, um campo de batalha, um hospital, um lar), o grau de sinal de perigo (nocicepção), suas crenças, suas expectativas e suas experiências passadas, assim como tantos outros fatores. Você experimentará dor somente quando seu corpo perceba uma ameaça suficientemente grande em relação ao contexto (12,13). Em termos leigos, você poderia reconceptualizar a dor como o sistema de alarme do corpo, que reage a ameaça, perigo e ferimento. O alarme (dor) é muitas vezes ativado quando ocorre uma lesão, mas o sistema de alarme é altamente inteligente e tem a capacidade de nos avisar antes mesmo de sofrer uma lesão, aumentando a probabilidade de evita-la.

O lendário doutor dinamarquês e professor de anatomia, Dr. Finn Bojsen-Møller, afirmou: “É fundamental para a capacidade de autoproteção do corpo que a dor comece antes de atingir o ponto de ruptura. Sem a experiência dolorosa, não há possibilidade de manter o corpo e o tecido intactos e inteiros (14) “.

Esta pesquisa científica, e suas implicações, são boas notícias e más notícias. A boa notícia é que, através dos avanços na pesquisa da ciência da dor, temos uma compreensão muito mais completa do que é a dor. As más notícias que emergem desta pesquisa, no entanto, é que a dor é uma experiência complexa influenciada por múltiplos fatores. Isso significa que não há soluções rápidas para o problema complexo que é a dor, e este é um grande desafio para os profissionais de saúde que estão tentando vender soluções rápidas. Mas também dá esperança a novos avanços nos tratamentos que integram a complexidade e a natureza multifatorial da dor.

Referências

  1. Melzack R, Katz J. Pain. WIREs Cogn Sci.2013; 4(1):1-15.
  2. Moseley GL. Reconceptualising pain according to modern pain science. Physical Therapy Reviews.2007; 12(3):169-178.
  3. Jensen MC, Brant-Zawadzki MN, Obuchowski N, Modic MT, Malkasian D, Ross JS. Magnetic resonance imaging of the lumbar spine in people without back pain. N Engl J Med.1994 Jul 14; 331(2):69-73X.
  4. Sher JS et al. Abnormal findings on magnetic resonance images of asymptomatic shoulders. J Bone Joint Surg Am. 1995 Jan; 77(1):10-5.
  5. Melzack R, Wall PD, Ty TC. Acute pain in an emergency clinic: latency of onset and descriptor patterns related to different injuries. 1982 Sep; 14(1):33-43.
  6. Boden SD, Davis DO, Dina TS, Patronas NJ, Wiesel SW. Abnormal magnetic-resonance scans of the lumbar spine in asymptomatic subjects. A prospective investigation. J Bone Joint Surg Am.1990 Mar; 72(3):403-8.
  7. Bhattacharyya T, Gale D, Dewire P, Totterman S, Gale ME, McLaughlin S, Einhorn TA, Felson DT. The clinical importance of meniscal tears demonstrated by magnetic resonance imaging in osteoarthritis of the knee. J Bone Joint Surg Am.2003 Jan; 85-A(1):4-9.
  8. Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, Bresnahan BW, Chen LE, Deyo RA, Halabi S, Turner JA, Avins AL, James K, et al. Systematic Literature Review of Imaging Features of Spinal Degeneration in Asymptomatic Populations. AJNR Am J Neuroradiol.2014 Nov 27. [Epub ahead of print].
  9. Girish G, Lobo LG, Jacobson JA, Morag Y, Miller B, Jamadar DA. Ultrasound of the shoulder: asymptomatic findings in men. AJR Am J Roentgenol.2011 Oct; 197(4):W713-9.
  10. Risberg MA. Degenerative meniscus tears should be looked upon as wrinkles with age–and should be treated accordingly. Br J Sports Med.2014 May; 48(9):741.
  11. Nakashima H, Yukawa Y, Suda K, Yamagata M, Ueta T, Kato F. Abnormal findings on magnetic resonance images of the cervical spines in 1211 asymptomatic subjects. Spine(Phila Pa 1976). 2015 Mar 15; 40(6):392-8.
  12. Moseley GL. A pain neuromatrix approach to patients with chronic pain. Man Ther. 2003 Aug; 8(3):130-40.
  13. Legrain V, Iannetti GD, Plaghki L, Mouraux A. The pain matrix reloaded: a salience detection system for the body. Prog Neurobiol.2011 Jan; 93(1):111-24. Epub 2010 Oct 30.
  14. Bojsen-Møller, F. 2001. Bevægeapparatets anatomi.12th ed., Denmark: Munksgaard.

 

Comentários

comentários