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A “fraqueza do quadril” é uma estrela em ascensão dos fatores de risco de lesões de corrida. A “síndrome da amnésia glútea” é o mais novo bode expiatório popular para lesão de corridas, especialmente a síndrome da banda iliotibial (ITBS) e a síndrome patelofemoral (SDPF). Eu não acho que os corredores deveriam ficar empolgados em relação a isso. As evidências não são convincentes o suficiente para “acreditarmos” no fortalecimento do quadril como uma prevenção ou terapia para qualquer condição.

No entanto, esse é um assunto interessante, e a teoria não é completamente sem mérito ou promessa. Vale a pena explorar, e prestar atenção. Mas é principalmente uma história de uma teoria favorita que foi lançada e ficou fora de proporção com base em evidências inadequadas – um bom exemplo moderno de um tipo de falha científica que assola a medicina musculoesquelética e esportiva.

Em uma estonteante demonstração de ironia, a edição de setembro de 2009 da Runner’s World tanto me citou como especialista desbancando a sabedoria convencional sobre alongamento… como ainda promoveu sem críticas um novo mito para uma nova geração de corredores: o mito do fortalecimento dos quadris.

As origens da propaganda exagerada da fraqueza no quadril.

A excitação começou em 2000, quando Fredericson et al relataram no Clinical Journal of Sports Medicine que “corredores de longa distância com ITBS têm fraqueza de abdução do quadril na perna afetada em comparação com a perna não afetada e com os corredores de longa distância não afetados”1.  Ainda melhor, eles descobriram (ou parece que descobriram) que “a melhora dos sintomas … é paralela à melhora na força do abdutor do quadril”.

Esse não foi um estudo perfeito. Não provou que músculos do quadril fracos realmente causam síndrome da banda iliotibial, ou que seu fortalecimento irá curá-la. Os pesquisadores mostraram somente que – talvez – essas coisas tendem a caminhar juntas: ITBS e fraqueza nos quadris, sentadas em uma árvore, olhos nos olhos.

Foi intrigante.

Cuidado! As pessoas, inclusive os cientistas, ficam muito facilmente impressionadas com correlações como essa. Em vez de causar a síndrome da banda iliotibial, é possível – francamente, provável, na verdade- que a fraqueza do quadril poderia ser um sintoma menor da síndrome da banda iliotibial, um dano colateral2. Mas havia muita empolgação em relação a isso de qualquer forma e, em 2005, Fredericson cometeu o erro de correlação, publicando a opinião indefensável de que a força do quadril realmente causa a ITBS3, embora seu estudo original não tenha provado isso, e ele não tenha feito nenhuma outra pesquisa sobre o assunto desde então, e nenhum outro cientista também o tenha feito.

Fase 2: A Afirmação Enganosa

Um mês depois, outra pessoa finalmente o fez: Niemuth et al publicaram “Fraqueza muscular e lesões por excesso de uso em corredores recreativos”4. Embora eles tenham encontrado a mesma associação que Fredericson et al, que realmente era tudo o que estavam procurando, o tamanho da amostra foi pequeno, e eles não provaram uma relação causal, e admitiram livre e especificamente que “… nenhuma relação de causa e efeito foi estabelecida”.

Em 2006, Lori Bolga e uma equipe na Universidade de Kentucky juntaram-se a briga. Eles estudaram várias medidas de força e função muscular em relação à síndrome da dor patelofemoral5, encontrando apenas uma associação “moderada” entre essa condição e fraqueza em um movimento menor do quadril (rotação externa), mas não encontraram  uma diferença significativa no “principal” movimento de força no quadril: a abdução do quadril 6. Os autores afirmam claramente – e não é surpresa nenhuma – que “não podemos determinar se a fraqueza do quadril era uma causa ou um resultado”.

Em 2007, Ferber et al completaram outro pequeno estudo7. Apesar de nunca ter sido publicado, tanto os pesquisadores quanto a mídia foram muito além dos resultados – um exemplo impressionante de publicação científica por notícia. “Eu acho que esse é um estudo do tipo boa notícia para as pessoas que estão vivendo com dor crônica contínua”, disse Dr. Ferber. “Você pode faze algo em relação a isso.” Muito otimismo! Relatando sobre isso para Calgary Herald. Trent Edwards escreveu (não está mais disponível on-line): “Enquanto a maioria das lesões de corridas acontece nos joelhos e na parte inferior das pernas, revelou-se que a causa raiz delas é quase sempre músculos fracos do quadril”. A coisa toda tem um tom misterioso de eureca, como se um grande mistério tivesse sido oficialmente resolvido. Mas Dr. Ferber estava claramente à frente de si mesmo. Todo mundo adora uma causa raiz.

Os pacientes trazem tais relatos da mídia para mim em um estado de otimismo, e eu tenho que ser o “balde de água fria”. Tenho que explicar que – simplesmente como com qualquer outro Santo Graal da teorização biomecânica – O júri não está apenas “ausente”, o julgamento sequer, mal tinha começado. Umas dúzias de estudos necessários ainda estavam faltando em 2007. Chegar a conclusões baseadas nas evidências na época não era apenas difícil, era impossível em princípio.

Não aconteceu muita coisa por mais três anos, enquanto a mentira continuava e os pesquisadores continuavam a promover suas hipóteses9,10. A divulgação é óbvia em uma revisão geral dos mecanismos de lesão em corredores em 200911 e então novamente em 2010, em um artigo que nem mesmo apresentava uma boa evidência de correlação, muito menos de causa12. Essas eram contribuições científicas insignificantes, e eu desisti do assunto com um pouco de desgosto naquele momento. E você também poderia. Pule a próxima parte se você já estiver convencido/decepcionado, porque há muito pouco a acrescentar, e o pouco que há principalmente apenas confirma que é um beco sem saída. Mas sou obrigado a ser minucioso, porque foi para isso que você veio.

Quando há sinais de que um cientista pode ser simplesmente um pouco apaixonado demais por suas próprias hipóteses excitantes, finalmente outros cientistas aparecem e tentam encontrar a mesma coisa … e geralmente fracassam.

O primeiro exemplo de replicação falida da hipótese da fraqueza do quadril surgiu em 2007, exatamente quando a mentira (o exagero) estava realmente surgindo. Grau et al disseram tudo eu que já disse acima, mas de forma mais formal, com um artigo intitulado: “Fraqueza no abdutor do quadril não é a causa da síndrome da banda iliotibal”14. Eles fizeram um pequenino teste de fortalecimento para ver se isso ajudaria, comparando a força do quadril em dez corredores com e dez sem a síndrome da banda IT. Não houve diferenças significativas, e “o fortalecimento dos abdutores do quadril parece ter pouco efeito”.

O que foi seguido por anos de silêncio científico. Durante esse tempo dezenas de milhares de corredores foram aconselhados por clínicos bem-intencionados a fortalecerem seus quadris para prevenir/tratar ITBS.

Avançando rapidamente até 2014: um pequeno artigo relatou apenas que uma parte menor de força nos quadris era perceptivelmente fraca em corredores lesionados – rotação interna – e não era uma grande diferença 15. “Pequenino” é o termo técnico para esse tipo de diferença. E embora a rotação interna seja de fato parte da equação biomecânica, dificilmente é o que as pessoas estão pensando quando elas pensam na força dos quadris. “Obscuro” é próximo adjetivo que me vem à mente.

Há somente mais um fragmento da ciência que eu conheço, em 2015, ainda outro pequeno artigo (claro) relatando uma modesta fraqueza na força do quadril – o tipo mais familiar, abdução – mas somente em corredores com síndrome da banda IT prévia16. Corredores com ITBS em processo… bem, nenhuma ligação, de modo algum. E a ligação com casos anteriores sugere que a pouca fraqueza que eles descobriram pode muito bem ser uma consequência de longo prazo por terem sido lesionados, não a causa.

Não há outra ciência sobre a qual relatar, exceto alguns artigos de revisão, formalmente tentando fazer sentido com a mesma evidência inadequada que eu tenho considerado aqui, algumas delas concluindo que pode, ou poderia haver uma ligação possivelmente, talvez. Mas outros, como Louw et al, têm concluído isso de forma mais honesta.

A literatura é inconclusiva em relação ao déficit de força muscular em corredores com um histórico de ITBS17.

Então a coisa todo apenas cheira a síndrome de “teoria favorita”, e é extremamente improvável que fraqueza no quadril cause síndrome da banda TI. E, portanto, é também extremamente improvável que fortalecer os quadris irá prevenir ou tratá-la.

Por que não fortalecer os seus quadris de qualquer forma? Quem não quer quadris mais fortes?

Você provavelmente tem coisas melhores para fazer do que progressivamente sobrecarregar músculos obscuros que provavelmente não têm nada a ver com ITBS. Mas suponho que se fosse eu, se meu próprio caso de ITBS retornasse e ficasse realmente insistente, eu poderia fazer isso de alguma maneira. Isso certamente não lesionaria algo. Eu não posso endossar, mas também não faço objeções.

Apenas entre com seus olhos bem abertos. Você pode estar perdendo seu tempo. Simplesmente como quinhentos soldados que já tentaram isso por você.

Aqui está mais um pouco da ciência desanimadora que eu retive para uma conclusão. Esse não foi um experimento pequeno: foi um enorme teste com mil soldados que fracassou em mostrar qualquer benefício (prevenção de lesões) ao fortalecimento do quadril. Embora um estudo nunca seja suficiente para resolver um problema, esse quase conseguiu. Os resultados foram publicados em 2008 no American Journal of Sports Medicine. 18 500 soldados fizeram tanto exercícios de alongamento como de fortalecimento escolhidos para tentar prevenir lesões no joelho por excesso de uso. Abdução do quadril foi incluída, especialmente por causa da afirmação enganosa sobre o fortalecimento do quadril: por causa dos artigos proeminentes divulgando-a como um possível fator de risco.  Os outros 500 soldados não fizeram nenhum exercício para comparação.

Resultados: As taxas de lesões nos dois grupos foram quase idênticas. E a diferença que havia entre eles era (ligeiramente) diferente na direção errada. O grupo que não fez nenhum exercício realmente teve ligeiramente menos lesões: 48 lesões ao invés de 50.

O fortalecimento genérico do quadril definitivamente não está prevenindo a síndrome da banda TI. E se não está prevenindo, também não está tratando..

Essa é uma tradução da excelente revisão de literatura realizada por Paul Ingraham, autor do blog PainScience.com. Seus artigos de modo geral quebram paradigmas e tiram os profissionais da zona de conforto. Todas as referências dessa publicação estão no artigo original, e você pode conferir aqui.

 

 

 

 

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