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Esta é a segunda parte do do artigo anterior. Paul Ingraham é autor do blog PainScience.com. Segundo o próprio, seu trabalho é baseado nos estudos do Dr. Lorimer Moseley, Diane Jacobs, e Jason Silvernail. Seus artigos de modo geral quebram paradigmas e tiram os profissionais da zona de conforto. Leia essa primeira parte como uma expectador externo, isento de filtros.

Você pode conferir o original aqui

Boa leitura!

Pedro Emerson.

Não interpretem isso como se fossem minhas palavras, pelo amor de deus. Há muitas fortes evidências e muitas opiniões de especialistas para me apoiar. E nem é esta uma posição extrema para ser defendida: Eu não preciso convencê-lo que o bebê e água do banho devem ser jogados fora juntos. Meu trabalho aqui está concluído se eu simplesmente lhe convencer que há uma dúvida sensata de que o modelo biomecânico sejam o fator principal na maioria das dores.

O estruturalismo tem sido evitado por muitos pesquisadores médicos e especialistas.

Por exemplo: um cirurgião ortopédico de São Francisco, Dr. Scott Dye escreveu de forma eloquente sobre como o estruturalismo pode ser imprudente quando se trata de dor no joelho. Eyal Landerman, um osteopata do Reino Unido, escreveu um artigo particularmente persuasivo, criticando o modelo postural-estrutural-biomecânico – um artigo muito parecido com este, mas muito mais acadêmico e técnico (para balancear, eu também citarei as extensivas rejeições ao artigo publicado pelo Journal of Bodywork & Movement Therapies (2011) 15, 130 e 152) o especialista em pé, calçados e ortopedia Benno Nigg escreveu um livro completo sobre como o estruturalismo tem se destacado de forma pobre através do tempo. Em um artigo de 2011 “A modernização da Terapia Manipulativa”, o fisioterapeuta australiano Max Zusman escreve:

Pesquisas indicam que, apesar do treinamento abrangente dos fisioterapeutas em ciências básicas, a terapia manipulativa musculoesquelética ainda é dominada nas condições clínicas pelo seu modelo “biomédico” original – e agora obsoleto – fundamentado na estrutura.

Especialistas em dor lombar, Drs. Richard Deyo e Nickolai Bogduk devotaram virtualmente suas carreiras em ensinar a médicos a não superestimarem a importância de fatores biomecânicos em dores nas costas. Bogduk escreve de forma concisa: dizer “doença degenerativa de disco” transmite aos pacientes que eles estão se desintegrando, o que não é verdade. Além do mais, degeneração de disco, espondilolistese e artrose (osteoartrite) espinhal se correlacionam pobremente com a dor e podem ser totalmente assintomáticos.

A carreira do Dr. John Sarno tem sido focada em desapoiar o estruturalismo em dor nas costas. Em 1984 ele escreveu pela primeira vez:

Provavelmente não há outra condição médica que seja tratada de tantas formas diferentes e por uma variedade tão grande de praticantes como a dor nas costas. Embora a conclusão possa ser desconfortável, a comunidade médica precisa assumir a responsabilidade por isso, pois ela tem sido estranhamente estreita em sua abordagem ao problema. Ela ficou presa a uma inclinação de diagnóstico da safra antiga e, de forma incomum e sem crítica, tem aceitado um conceito não provado que essas anormalidades estruturais são a causa da dor nas costas.

Mind over back pain, de John Sarno, P. 112

Se não é a estrutura, então o que é? E quem disse isso?

Neurologia e homeostase. Outro australiano, um pesquisador da dor, Dr Lorimer Moseley, tem feito ótimas pesquisas e “dissemina” esse tema há anos, constantemente encorajando clínicos a compreenderem a dor não como uma consequência inevitável do stress biomecânico e do trauma tecidual, mas como uma resposta do cérebro fortemente afetada por muitas considerações – muitas das quais não têm nada a ver com questões nos tecidos. A evidência de que a patologia tecidual não explica a dor crônica nas costas é esmagadora. Ou melhor:  “a evidência de que a patologia tecidual não explica a dor crônica nas costas é esmagadora (como na dor nas costas, dor no pescoço e artrose (osteoartrite) nos joelhos)”.   – e se a cronicidade da dor não pode sequer ser explicada como patologia no tecido nestas condições comuns, não é muito provável que alterações biomecânicas sutis possam preencher esse espaço em branco. Essa perspectiva vem se espalhando como um incêndio.

E há questões relacionadas aos tecidos que podem ter pouco ou nada a ver com estruturalismo de modo algum. Em 2011, o biólogo Paul Kubes publicou uma evidência fascinante de que a inflamação pode se tornar crônica devido a uma falha no sistema imunológico humano. Dr. Janet Travell, Dr. David Simons e Dr. Siegfried Mense deram contribuições científicas significantes para compreendermos as alternativas mais sutis e complexas para o estruturalismo, especialmente as formas pelas quais os músculos podem doer mais ou menos “espontaneamente”. – devido à disfunção neurológica e/ou metabólica – talvez causando muitas das dores crônicas que seriam normalmente atribuídas ao bicho-papão da biomecânica. Simons em particular escreveu extensivamente e apaixonadamente sobre a negligência em relação a esse assunto importante:

O músculo é um órgão órfão. Nenhuma especialidade médica o reivindica. Como consequência, nenhuma especialidade médica está preocupada em promover pesquisa financiada para as causas musculares da dor, e os estudantes de medicina e terapeutas físicos raramente recebem treinamento primário adequado sobre como reconhecer e tratar pontos-gatilho miofasciais.

Simons

Evidência científica de que o estruturalismo é um paradigma falido

Para detector uma falha física que precisa ser corrigida, alguém tem que começar tendo uma avaliação confiável de se isso realmente é ou não problemático, em primeiro lugar.

Tumminello et al, 2017, Personal Training Quarterly

Muitos estudos científicos importantes através dos anos enfraqueceram fortes suposições estruturalistas. Algumas das evidências são diretas. Algumas são indiretas, ou “circunstanciais” como um advogado criminalista diria. Há um forte padrão de todos os tipos de evidências convergindo para a mesma conclusão: O estruturalismo não produz terapias eficazes. Não “transmite os benefícios”.

Minha evidência direta favorita – não a melhor, mas a favorita – sempre foi o simples estudo do comprimento de perna publicado no passado, em 1984, no venerável jornal médico britânico Lancet. Esse estudo mostrou que as diferenças no comprimento das pernas não estavam relacionadas à dor nas costas – nem sequer tinham uma correlação, o que dirá uma relação causal. E então há o fato de que pequenas diferenças não podem sequer serem confiavelmente diagnosticadas em primeiro lugar – um problema padrão com problemas estruturais alegados.

Usar e desgastar? Nem tanto. Uma das crenças mais profundamente mantidas na medicina  musculoesquelética é que a osteoartrite é uma condição de “usar e desgastar” – que articulações quebram-se sob o impacto da gravidade e do uso. Essa visão fundamentalmente mecânica da artrite sugere diretamente que quanto mais vivemos e quanto mais pesados somos, mais somos propensos a ter problemas de articulação. Mas sabemos que a prevalência da osteoartrite dobrou no século 20, independente da idade e do peso. Isso destrói a história do “usar e desgastar”. Algo mais está acontecendo. Precisamos ficar observando a neurologia e a imunologia.

O medo de uma curva excessiva na região lombar, também conhecida como o mito da inclinação pélvica, gerou inúmeras “curas” para dor nas costas fundamentadas em alongamento e fortalecimento para tentar esticá-la um pouco, com a gratificação (por coincidência, tenho certeza) de diminuir barrigas ao mesmo tempo. Essa é uma questão bem estudada, e uma revisão sistemática de 2008 de mais de 50 estudos não descobriu qualquer associação entre tamanhos de curvas da coluna vertebral e dor. Se houver alguma conexão, é uma conexão fraca.

Um exemplo excelente é uma falha do FMS para detectar lesões reais recentes; para detectar quaisquer fatores de risco biomecânicos sutis ou específicos para a lesão.  O FMS é um conjunto de testes físicos destinados a “identificar assimetrias e limitações” fundamentados na suposição de que elas são um problema – que é estruturalismo clássico. Um estudo de 2011 no International Journal of Sports Physical Therapy descobriu que os resultados dos testes FMS não mudam em pessoas que foram realmente lesionadas nos últimos seis meses. Se um teste não pode detectar o efeito de uma lesão recente no corpo, ou os fatores risco de que levam a isso, provavelmente não pode detectar futuras lesões também, e a suposição estrutural no coração da FMS é portanto bastante duvidosa.

O pescoço é um local popular para o bicho-papão biomecânico, mas em 2007 Grob et al publicaram descobertas no European Spine Journal de que curvaturas anormais no pescoço não têm qualquer conexão com dor no pescoço.

Ou o Ombro? “discinesia do ombro” – conversa fantasiosa para movimento ruim do ombro – é um bicho-papão biomecânico popular nesta área, mas definitivamente não há nenhuma fumaça de evidência de que o movimento radical no ombro leve inexoravelmente à dor. Uma revisão de 2013 no British Journal of Sports Medicine “nenhum teste de estudo da escápula foi visto como útil para diagnosticar diferencialmente patologias do ombro”. Uma edição do British Journal of Sports Medicine declarou em destaque no seu título que “a discinesia escapular aumenta o risco de futura dor no ombro, em torno de 43%, em atletas assintomáticos. O que? Mas era uma manchete bizarramente enganosa.

Talvez o joelho? Um estudo bizarro e surpreendente publicado no New England Journal of Medicine em 2002 mostrava que um placebo para osteoartrite do joelho é simplesmente tão bom quanto uma cirurgia real. Um problema mais “mecânico” do que cartilagem de joelho desgastada dificilmente pode ser imaginado, ainda assim 150 pessoas que passaram por uma cirurgia simulada se recuperaram simplesmente tão bem quanto pessoas que realmente tiveram suas cartilagens lubrificadas. É difícil imaginar um golpe mais esmagador no estruturalismo! Exceto talvez isso: Uma revisão em 2010 de fatores de risco para o desenvolvimento da artrite no joelho (depois da perda de tecidos mecânicos) eliminou principalmente o “mau alinhamento do joelho” como um fator. É uma certeza que mau alinhamento definitivamente significaria problema? Essa é uma suposição comum! Mas não é segura.

Numerosos estudos MRI das costas através dos anos têm mostrado simplesmente uma terrível correlação entre problemas estruturais e dor nas costas. Dia após dia, você descobre que pessoas com dor lombar não têm quaisquer problemas mecânicos, e pessoas com problemas mecânicos não têm nenhuma dor lombar.

É certo que o estreitamento do canal vertebral é sempre doloroso? Talvez não. Intensificando a contra intuição, outro registro: cientistas descobriram em 2016 que um problema estrutural que todos previamente presumiam ser sempre doloroso – até eu pensava assim! Acabou não se confirmando. Estenose espinhal sempre foi considerada como uma causa inevitável de dor nas costas, mas os Archives of Physical Medicine & Rehabilitation mostraram claramente que ela não causa dor afinal.

Dor no quadril raramente é causada por artrite… mesmo quando a articulação do quadril  está claramente em condição de artrite. A maioria das pessoas com sinais de artrite (em raio X) não têm dor, e a maioria das pessoas que tem dor no quadril não tem artrite. A maioria das dores nos quadris é … outra coisa.

Pouca correlação dor-degeneração em animais, também! Aqui está uma perspectiva interessante do veterinário Johnny Bat-Yonatan em displasia do quadril canino, uma condição de artrite comum em grandes raças como labrador retriever, pastor alemão e rottweiler:

É uma coisa horrenda que sempre conduz a situação de o animal ter que ser submetido à eutanásia, mas a classificação altamente especializada de displasia no quadril não a correlaciona diretamente com mobilidade e qualidade de vida. Você tem ótimos raios X de animais que mal podem andar, e quadris horrendos em cachorros que não mostram nenhuma dor. Raios X às vezes mostram uma história, outras vezes são um comentário. Aprendemos cedo que precisamos tratar o animal, não a radiografia.

“Trate o animal, não a radiografia”. Bem colocado, e igualmente adequado para animais de estimação e seus seres humanos. Somos todos animais! Para mais informações, veja Displasia Canina, de Wendy Brooks.

Um dente na garganta? O osso estiloide na parte de trás da garganta parece com um dente de um esquilo com dente-de-sabre. Ela pode ser bem comprida e começar a incomodar a anatomia sensível em torno da extremidade (Síndrome de Águia). Mas há exceções, surpreendentemente, a maioria das pessoas com estiloides alongadas estão simplesmente bem. Está claro que o comprimento do osso estiloide não é um perigo em si mesmo – alguma outra coisa tem que estar errada.

Se a instabilidade vertebral fosse dolorosa, certamente estabilizar ajudaria? Mas um estudo de 2009 mostrou que “estabilizar” vertebras fraturadas, injetando cimento ósseo realmente não auxilia a recuperação – de modo algum! – Se um método de estabilização tão direto não funciona, é muito difícil fazer com que o caso de instabilidade possa ter sido muito relacionado a um tecido, em primeiro lugar.

Um golpe na importância do “equilíbrio” muscular – massa muscular simétrica e força – foi passado pelo British Journal of Sports Medicine em 2014. Primeiro os autores provaram que a maioria dos desequilíbrios musculares realmente existe na elite dos jogadores de futebol australiano – músculos chutadores maiores por um lado!  – e então provaram que eles “não estavam relacionados com o número de lesões” nesses atletas. Repito: NÃO ESTÃO RELACIONADOS. Isto é exatamente o oposto do que qualquer bom estruturalista preveria.

Investigações sobre a etiologia das lesões presumiram uma visão reducionista na qual um fenômeno foi simplificado em unidades e analisado como a soma de suas partes básicas e a casualidade foi percebida de uma forma linear e indireta.  Essa abordagem reducionista depende de análises de correlação e regressão e, apesar do grande esforço para prever lesões no esporte, tem sido limitada na sua habilidade para identificar de forma bem sucedida fatores previsíveis.

Bittencourt et al, 2016, British Journal of Sports Medicine

Vários outros fatores de risco habituais: Pronação é a mais famosa de toda uma série de peculiaridades biomecânicas que supostamente importunam corredores, incluindo algumas já mencionados acima. A maioria das tentativas de confirmá-los fracassou. Em 2004, Devan et al publicaram no Journal of Athletic Training que eles não conseguiram encontrar uma conexão entre lesões no joelho como síndrome de banda iliotibial, síndrome patelofemoral  e qualquer um dos “suspeitos habituais” mecânicos que sejam considerados culpados por essas condições. Outro artigo no mesmo ano relatou “nenhuma evidência de medidas de alinhamento biomecânico estático de membros inferiores está relacionada com lesão em um membro inferior, exceto a síndrome da dor patelofemural”. Em 2009, Ferber et al concluíram que  “não há nenhuma ligação definitiva entre mecânicas atípicas do pé e  mecanismos habituais de lesão”. Um estudo de 2016 no Eur J Sport Sci “não descobriu associações significantes”. Isto não quer dizer que não há quaisquer fatores de risco para lesões habituais – há alguma evidência apontando nessa direção.  Mas sejam quais forem as associações, não são de forma clara muito evidentes.

O fortalecimento do core é presumido como importante por quase todo profissional e pacientes, e ainda assim, tem sido completamente desacreditado por um experimento após outro por vinte anos até agora. Nenhum tipo de treinamento do core tem um poder especial em relação à dor nas costas, não consegue produzir qualquer benefício maior do que poucos ou maior do que qualquer outro tipo de exercício terapêutico, e não reduz taxas de lesões.

A indústria do fortalecimento do core: O estruturalismo está em seu momento mais insidioso com o fortalecimento do core. A “indústria” do fortalecimento do core tende a colocar ar e age como que isso seja vital, não somente para você fazer o treinamento do core, mas para fazer de um modo especial, técnico, apenas designado aos pacientes corretos (habilmente personalizado). Essa é uma das principais razões para pagar um terapeuta físico: o paciente acredita que deve haver alguma razão para pagar $80/hora do que simplesmente praticar exercícios abdominais em casa! Childs et al enfraquecem o dogma do fortalecimento do core mostrando que simplesmente não importa o quão “técnico” seu fortalecimento do core seja.

Meu exemplo recente favorito de pesquisa sobre a força do core é um estudo de 2010 com mais de 1.100 soldados, que descobriu que o fortalecimento do core especializado e “preciso” fizeram pouco para melhorar as taxas de dores nas costas (ou qualquer outra lesão) comparados com o bom exercício abdominal fora de moda. Entretanto, muitos outros estudos mostram que nenhum tipo de fortalecimento do core é importante (para dores nas costas).

Um amplo estudo de 2011 sobre massoterapia para a dor lombar testou a eficácia de um estilo de massagem “estrutural” que consiste de uma combinação de técnicas populares e abordagens de tratamento fundamentadas em suposições estruturalistas. Massoterapeutas são propensos a acreditar que “movimentos corretos” terão um efeito terapêutico mais profundo.

Terapeutas moderadamente treinados com mais de cinco anos de experiência proporcionaram à cerca de 130 pacientes 10 horas desse tipo de massagem. Eles também deram massagem (sueca) para relaxamento simples para outros 130 pacientes. Os efeitos na dor nas costas dessas duas abordagens foram cuidadosamente medidos por um ano inteiro. Os resultados foram reveladores: não houve “nenhuma diferença clinicamente significativa entre massagem de relaxamento e massagem estrutural”, qualquer que fosse! Esse é um resultado bastante embaraçoso para técnicas que são rotineiramente divulgadas como “avançadas”. Se o estruturalismo fosse uma boa base para técnica de massagem, não deveria ter produzido resultados superiores impressionantes?

Minha experiência pessoal em estudar esse assunto pelos últimos vários anos é que eu quase não consigo mais procurar nada sem encontrar mais evidências de que o estruturalismo é apenas, geralmente, uma maneira pobre de explicar as dores nas pessoas.

Retratação! Estrutura não é totalmente irrelevante

Reclamações de pacientes que se originam no sistema musculoesquelético normalmente têm múltiplas causas para o quadro total.

Drs. Travell e Simons

Uma parte importante da questão contra o estruturalismo é que ele não é absolutista. Seria difícil provar que a biomecânica nunca tem importância, porque isso é louco. É relativamente fácil dizer que tem uma importância menor do que a esperada.

Claro que fatores da biomecânica são relevantes para alguns problemas de lesões e de dor. Perguntem a alguém que teve uma ruptura de tendão. O estruturalismo é pela definição que eu dei, uma excessiva preocupação com fatores biomecânicos. Deixem-me dizer isso em voz alta e claramente:

Sim, a biomecânica tem uma importância algumas vezes. Milhares de vezes, sim. Nada é preto ou branco.

O melhor exemplo científico recente disso é um par de estudos no AJNR Am J Neuroradiol em 2015, publicado pelos mesmos pesquisadores, que observaram muitas das fotos de MRI de colunas vertebrais. O primeiro artigo apresentou evidência de que sinais de degeneração da coluna vertebral são mostrados em porcentagens muito altas em pessoas saudáveis com nenhum problema de qualquer tipo.

Bom saber. E esse é o tipo de evidência apresentado na última sessão. Eu poderia facilmente te-lo citado aqui.

Mas um segundo artigo apresenta evidências de que características degenerativas visíveis em MRI são, contudo, “mais prevalentes em adultos com 50 anos de idade ou mais novos com dores nas costas comparando com indivíduos assintomáticos”.

Também é bom saber.

Deliciosa dissonância cognitiva? A mensagem para levar-para-casa é realmente apenas um compromisso agradável, sensato entre dois pontos de vista bem conhecidos: mudanças degenerativas tem menos importância do que muitos pacientes e profissionais ainda supõem, e não formam um fundamento adequado para muitos tratamentos populares, mas elas ainda têm importância. Ah, ok.

Outro exemplo interessante: articulações lombares enrijecidas nas mulheres

É um fato anatômico que mulheres têm articulações lombares posteriores mais fortes. O que é quase certamente uma característica biomecânica que evoluiu para lidar com os estresses combinados da gravidez:  o peso aumentado, estranhamente fora do centro e a inclinação para trás para evitar cair. Isso sugere fortemente que mulheres com colunas vertebrais mais frágeis, através da eternidade, sempre fracassaram em levar a gravidez até o final porque o esforço era debilitante. Mesmo nos dias de hoje, mesmo com colunas vertebrais mais resistentes, mulheres grávidas sofrem com taxas aumentadas de dor lombar.

Quais são as hipóteses de que essa adaptação evolutiva torne mulheres imunes às tensões nas costas causadas pela gravidez? Bem…nenhuma.

O que entendemos como isso é que a importância da curvatura da coluna vertebral é moderada pela evolução. Podemos claramente perceber que esses desvios a partir de curvaturas normais da coluna vertebral são um fator de dor nas costas, ou as mulheres nunca teriam desenvolvido uma adaptação para lidar com isso. Por outro lado, a mesma adaptação muito claramente mostra que tanto homens como mulheres são provavelmente adaptados suficientemente para que a curvatura na coluna vertebral sozinha não possa ser um “fator decisivo” – se fosse teríamos evoluído para lidar com isso.

Outra forma de colocar isso: a evolução não se importa se você tem dor nas costas, contanto que você possa reproduzir… mas ela sempre garante que você possa fazer pelo menos isso. Quais são as hipóteses de que essa adaptação evolutiva torne as mulheres imunes às tensões nas costas causadas pela gravidez? Bem, nenhuma… é fácil para a natureza nos selar com imperfeições biomecânicas que são desconfortáveis e imperfeitas, mas ao mesmo tempo somos na maioria das vezes bem protegidos de características biomecânicas que são rotineiramente incapacitantes.

Portanto, fatores biomecânicos são muito menos importantes do que geralmente é suposto.

Mas os estruturalistas não estão todos errados ou sempre errados, claro. Alguns bichos-papões biomecânicos são realmente assustadores, e há momentos para diagnósticos estruturais e para uma solução estrutural. Alguns problemas são claramente de natureza mais “mecânicas” do que outros – e o menisco no joelho é um exemplo impressionante de alta funcionalidade, mas também de compromisso evolutivo vulnerável. Pesquisas médicas não tiveram nenhum problema em confirmar isso… ou de demonstrar a assertividade da teoria elaborando terapias e cirurgias que resolvam o problema. De fato, é o poder de tais tratamentos que em parte, tornaram uma visão estruturalista sobre outros problemas de dor tão atraente.

Ainda assim não há nenhuma dúvida na minha mente de que a evidência nos afasta do impulso de procurar “agulha em palheiro”, em relação à maioria das teorias estruturalistas populares.

A refutação épica e amplamente citada de Jason Silvernail às acusações de que estamos jogando o bebê da biomecânica com a água do banho (expressão com o mesmo sentido em português: jogando o champanhe junto com a cortiça)

O meu argumento é que a biomecânica deveria ser pouco enfatizada, não ignorada, mas os estruturalistas investem tanto em suas perspectivas que sempre reagem com feroz defensiva a esse artigo – e a todos os argumentos semelhantes em outros. Eles atacam o argumento o representando erroneamente, e quase sempre da mesma forma: Eles dizem que eu estou alegando que a biomecânica não têm importância nenhuma, ou que estou jogando o bebê com a água do banho, ou as duas coisas, atacando uma opinião que eu realmente não tenho – e isso se torna realmente cansativo.

E eu não sou o único que ficou cansado disso! Jason Silvernai também ficou “realmente morto de cansado dessa reação particular enlatada”. Em 2013 ele espontaneamente escreveu sua refutação épica, que foi citada infinitamente por muitos colegas com ideias semelhantes desde então.

Toda vez que a ciência da dor é discutida, há sempre pessoas que “puxam o freio de mão”  e isso é quase sempre, seja algo reconhecido ou não, a “biomecânica não têm importância”. Ninguém disse que a biomecânica não tem uma importância. Dor de origem mecânica na sua natureza é biomecânica e os conceitos da neurodinâmica são também. O problema é que pessoas foram ensinadas a pensar que coisas como inclinação pélvica, fragilidade do core e músculos curtos são problemas biomecânicos significantes que devem estar criando um grande impulso nociceptivo que, portanto, as discussões da ciência da dor ignoram a dor nociceptiva.

Mas precisamos colocar a biomecânica “no seu lugar” não “fora das nossas mentes” quando pensamos sobre dor. Precisamos começar a questionar bem de perto nossos processos clínicos racionais e perceber que nem todo comprometimento do movimento ou função está contribuindo igualmente para gerar uma experiência de dor, e muitos podem ser irrelevantes. Descobrimos os que são relevantes e que valem a pena serem corrigidos através de uma abordagem sistemática e de um processo racional – dois dos mais comuns e mais apoiados pelos estudos randomizados são o sistema McKenzie MDT e o sistema de terapia manual Maitland.  

O que não fazemos é presumir que todo tipo de comprometimento posicional, de movimento, de extensão ou força muscular, de mobilidade do nervo, ou de movimento do acessório de articulação está contribuindo com o impulso nociceptivo. E que todos precisam ser direcionados, e também não presumimos que conhecer as evidências de pesquisas publicadas de que muitos desses comprometimentos são descobertas normais sem relação à experiência da dor seja de alguma forma ‘ignorar a biomecânica’.

Isso é uma constatação de como as pessoas são doutrinadas no modelo biomecânico de que o conceito de dor começa e termina com suas habilidades de encontrar coisas para culpar e de consertar o corpo do paciente. Eu, por um lado, não me desculparei por tentar mover pessoas que estão no mundo do fitness e da reabilitação de uma visão desatualizada tão simplista, centrada no praticante, para uma visão moderna da experiência da dor mais complexa e centrada no paciente.

Jason Silvenails, DPT, Dsc, FAAMPT, That Grinds My Gears: “You Say Biomechanics Doesn’t Matter”

Journal Manual Therapy não quer mais focar na terapia manual

Aqui temos uma ampla acusação de estruturalismo: em 2017, O jornal Manual Therapy mudará seu nome para Muscoloskeletal Science & Practice. A explicação sub anunciada:

O novo título refletirá melhor a prática atual, a educação e pesquisa na área de fisioterapia musculoesquelética mundialmente e garantirá que o jornal continue sendo uma publicação líder na área.

Em outras palavras, “a terapia manual” é muito estreita, demasiadamente engajada em concertar pessoas com técnica e mãos mágicas, e negligencia outras perspectivas e abordagens. A mudança sinaliza uma retirada geral da crença de que carne (corpo) e estrutura precisam ser mudadas… ou  de que sequer podem ser. Isso está enfatizando que a terapia manual precisa ir além de ser “manual”.

Tempos interessantes.

As referências desse texto podem ser encontradas no artigo original: clique aqui.

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