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Uma das estratégias de tratamento para dor crônica que está ganhando forças é simplesmente melhorar a compreensão do paciente sobre a sua dor. Entretanto, não tão simples assim, precisamos mudar também a nossa concepção sobre o que é dor. 

Você pode conferir o original aqui. Texto original escrito pelo pesquisador Lorimer Moseley.

Boa leitura!

Pedro Emerson.

Todo mundo sente dor, mas nem todo mundo continua sentindo dor.

Embora não saibamos por que algumas pessoas não se recuperam de um episódio agudo de dor, sabemos que em primeiro lugar, não é porque a lesão foi grave. Nós também sabemos que não é porque elas têm um problema de personalidade. Finalmente, sabemos que, em geral, os tratamentos para dor crônica não são particularmente bem-sucedidos.

Essa realidade desenha algumas reflexões interessantes sobre a própria dor. O que é dor? É simplesmente um sintoma de danos nos tecidos ou é algo mais complexo?

Uma maneira de abordar esta segunda questão é determinar se é possível ter um sem o outro – danos nos tecidos sem dor ou dor sem danos nos tecidos.

E você pode responder a si mesmo – já notou uma contusão que você não teve absolutamente nenhuma lembrança de como se machucou? Se você respondeu sim, então você sofreu danos nos tecidos sem dor.

Já tomou banho no final de um longo dia exposto ao sol e encontrou a água, que normalmente é agradavelmente quente, dolorosamente quente? Não foi o banho que te gerou esse desconforto – foi apenas a ativação dos receptores sensibilizados em sua pele.

Essas perguntas e suas respostas são de grande interesse para os cientistas da dor, porque elas nos lembram que a dor não é simplesmente uma medida de danos nos tecidos.

hematoma

Você já teve um hematoma que não faz idéia de como conseguiu?

O que é dor?

A International Association for the Study of Pain define a dor como uma experiência. A dor geralmente é desencadeada por mensagens que são enviadas dos tecidos do corpo quando esses são apresentados a algo potencialmente perigoso.

Os neurônios que carregam essas mensagens são chamados de nociceptores, ou “receptores de perigo”. Chamamos o sistema que detecta e transmite eventos nocivos de “nocicepção”. Curiosamente, a nocicepção não é suficiente nem necessária para a dor. Mas na maioria das vezes, a dor está associada a alguma nocicepção.

A quantidade exata ou tipo de dor depende de muitos fatores. Uma maneira de entender isso é considerar que, uma vez que uma mensagem de perigo chega ao cérebro, ela precisa responder a uma pergunta muito importante: “Quão perigoso é isso realmente?” Para responder, o cérebro desenha cada informação possível – exposição anterior, influências culturais, conhecimento, outras pistas sensoriais – a lista é infinita.

Como todos esses fatores podem modular a dor? A teoria favorita entre os cientistas da dor baseia-se na complexidade do cérebro humano. Podemos pensar na dor como uma experiência consciente que surge em resposta à atividade de uma rede específica de células espalhadas pelo cérebro. Podemos chamar essa rede de células de “neurotag”, que contém todas as suas células membros específicas.

Cada uma das células cerebrais que compõem uma neurotag também são células que compõem outras neurotags. Se tivermos a frase ” protusão discal ” em nosso cérebro por exemplo, ela deve ser mantida por uma rede de células cerebrais (que podemos chama-la de “neurotag protusão discal “). E é altamente provável que existam algumas células cerebrais que são membros da neurotag “protusão discal” e da neurotag “dor nas costas”. Isso significa que, se ativarmos a neurotag “protusão discal”, aumentamos ligeiramente a probabilidade de ativar a neurotag “dor nas costas”.

Usando este modelo, pensar que temos uma protusão discal temos a chance de aumentar a dor nas costas.

Mas e se esse conhecimento que armazenamos seja impreciso, assim como nossa noção de protusão discal?

Quando o cérebro está usando uma informação imprecisa para avaliar quanto perigo está em seu entorno, podemos prever com confiança que, se pensarmos que temos uma protusão discal e imaginar um desses horríveis modelos clínicos de uma protusão discal, aumentaremos a dor nas costas.

É aqui que nossa compreensão da própria dor se torna parte de um ciclo vicioso. Sabemos que, à medida que a dor persiste, o sistema de nocicepção torna-se mais sensível. Isso significa que a medula espinhal envia mensagens de perigo ao cérebro a uma taxa que superestima o verdadeiro nível de perigo.

Esta é uma adaptação normal ao disparo persistente de nociceptores espinhais. Como a dor é (erroneamente) interpretada como uma medida de dano tecidual, o cérebro não tem outra opção senão presumir que os tecidos estão se tornando mais danificados. Então, quando a dor persiste, assumimos automaticamente que o dano no tecido persiste.

Com base no que sabemos agora sobre o sistema nervoso, esta presunção é muitas vezes errada. O pedaço de conhecimento que está transformando a neurotag da dor está realmente sendo reforçado por si mesmo! Eu acho que vai assim: “mais dor = mais dano = mais perigo = mais dor” e assim por diante e assim por diante.

A idéia de que uma compreensão imprecisa da dor crônica aumenta a dor crônica norteia os questionamentos – o que acontece se corrigimos esse conhecimento impreciso?

Estamos pesquisando a resposta para isso há mais de uma década, e aqui está um pouco do que descobrimos:

(i) a dor e a incapacidade diminuem, não por muito e não muito rapidamente, mas diminuem;

(ii) os tratamentos baseados em atividade física têm melhores efeitos;

(iii) os disparos dos sinais de dor reduzem em sua frequência e magnitude;

(iv) os resultados a longo prazo dos tratamentos baseados em atividade física são melhores.

Há evidências convincentes de que reconceptualizar a dor de acordo com sua biologia subjacente é uma coisa boa a fazer. Mas não é fácil. Nosso grupo de pesquisa está continuamente procurando melhores maneiras de fazer isso, e nós não somos os únicos.

A idéia de explicar a dor está presente em programas de gerenciamento de dor e departamentos ambulatoriais em todo o mundo.

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