Movement-Variability

Enquanto o termo “treinamento funcional” pode já não ser mais tão popular quanto antes, a “variabilidade motora” surge como um novo termo da moda para profissionais que lidam com o movimento. Sejam esses tanto treinadores quanto profissionais de reabilitação. Se pedirmos para 10 pessoas diferentes definirem o que é “treinamento funcional” teremos 10 respostas diferentes, e para essas 10 respostas, teremos 10 interpretações diferentes na prática. Parece que com a “variabilidade motora” esse fenômeno vem se repetindo.

A maior influência que a área do treinamento e da reabilitação recebeu sobre a variabilidade vem dos fãs da aprendizagem motora e da aquisição de habilidades: o “movimento” está na moda e a “variabilidade motora” fornece exatamente a quantidade certa sustentação teórica. Entretanto, na prática, ainda é vaga o suficiente para ser medida ou avaliada em razão da sua inerente complexidade. Sendo assim, a variabilidade ainda possui muito pouca regulação e monitoramento dentro do design de um programa de exercícios. Incorporar os conceitos de “variabilidade motora” é fácil quando as verdadeiras soluções para o desenvolvimento de um atleta , aluno ou paciente não estão disponíveis, mas também é fácil abandoná-los quando o desafio é alto.

Obviamente, o ponto de partida mais importante é definirmos o termo adequadamente. Definir a variabilidade motora não é difícil, mas se isso for feito somente com base em um livro didático, poderá perder a conexão importante com a prática do movimento, pois pode parecer uma enxurrada de termos biomecânicos e/ou neurofisiológicos que, de certa maneira, possuem pouca conexão com a prática.

Primeiramente, precisamos ter em mente que a variabilidade motora é a variação normal que ocorre no desempenho motor em várias repetições de uma mesma tarefa.  Essa definição de Stergiou e Decker é interessante porque usa a palavra “normal” para conceituar a variação no movimento dentro de uma tarefa. A variabilidade motora é inerente ao seres humanos e perfeitamente normal, fazendo parte da saúde de um indivíduo.

Na verdade, Nikolai Bernstein (considerado talvez o pai da biomecânica moderna) com suas incríveis técnicas ciclográficas, observou, há muitos anos atrás o fenômeno da variabilidade de movimento. Bernstein liderou pesquisas para analisar a técnica que ferreiros mais experientes adotavam para executar suas tarefas laborais com o martelo, e se essas técnicas poderiam ser ensinadas por ferreiros menos experientes. Bernstein descobriu que a variabilidade da ponta do martelo ao longo de uma série de tentativas era menor do que a variabilidade das trajetórias de articulações individuais do braço segurando o martelo. Ele concluiu que as articulações não estavam agindo de forma independente, mas corrigindo os erros uma das outras para manter o martelo dentro de uma trajetória ótima de desempenho. O interessante é que tanto os experientes quanto os novatos apresentavam essa mesma variabilidade nas articulações envolvidas no controle do martelo. Entretanto, nos novatos, essa variabilidade não era suficiente para estabilizar a ponta do martelo dentro da trajetória ótima de desempenho. Isso ajudaria a explicar a baixa acurácia desse grupo e menor produtividade.

A razão da variabilidade motora ser complexa é simples: existem interações que ocorrem dentro das muitas variáveis intrínsecas do corpo humano e existem as interações dessas variáveis com as variáveis extrínsecas do ambiente. Tudo isso em função da tarefa que está sendo executada. Podemos dizer de uma forma bem sucinta que para cada tarefa existe um conjunto de soluções que pode ser explorado, e não exatamente uma única solução motora ideal. Eis aí a variação de soluções. A maior parte do que Bernstein compartilhou décadas atrás ainda ressoa como verdade hoje em dia. Profissionais de Educação Física, Fisioterapeutas e outros profissionais que trabalham com o movimento podem usar o seu trabalho como um guia para promover aprendizagem motora e a expressão do movimento.

Como podemos observar a variabilidade motora na prática?

As mudanças entre as batidas do coração em um determinado período são uma medida de saúde bem conhecidas. A  área clínica considera a variabilidade da frequência cardíaca como uma medida de monitoramento de saúde e bem-estar de um indivíduo, mas tarefas como correr e saltar são um pouco mais complexas e difíceis de decifrar. O grande problema que lidamos hoje, é que as ciências do movimento humano ainda buscam um consenso sobre como quantificar, analisar e intervir na variabilidade do movimento humano. Além da avaliação biomecânica, monitorar a variabilidade de movimento na prática é outra tarefa difícil, especialmente com as limitações dos sistemas EMG e IMU.

Considerando o movimento humano dentro de sua inerente complexidade, a avaliação de uma estratégia de movimento depende do sucesso do desempenho da  tarefa. Isso é o centro da diferença entre variabilidade e erro. Não há como considerar se uma estratégia é uma expressão natural da variabilidade daquele indivíduo ou se é uma manifestação de uma luta contra erros, se não temos bem definidos os parâmetros da tarefa que está sendo executada.

Erros ou falhas são uma combinação de intenção, de ambiente, de tarefa, habilidade e experiência. Progressões e regressões de exercícios são muito populares no meio do treinamento e reabilitação porque são motivadas pelo exercício, mas as correções também precisam levar em conta como o sistema nervoso central (SNC) funciona e como ele pode ser melhor explorado. Um erro é uma combinação de fatores conscientes e inconscientes que geralmente resultam em um desempenho abaixo da média e consequências claras em um padrão de movimento. Geralmente os erros são menos eficientes e menos eficazes (em função do desempenho), enquanto a variabilidade motora é responsável por manter níveis suficientes das necessidades essenciais da tarefa para executa-la sob demandas diferentes.

O desafio mais comum em trazer esses conceitos para a prática do treinamento e reabilitação é observar as diferenças aceitáveis e sutis na variabilidade do movimento e decidir por intervir ou não. Promover um excesso de informações para o aluno/atleta/paciente sobre como executar “corretamente” determinada tarefa e/ou adicionar variações no processo, não estão diretamente relacionados à variabilidade motora. A variabilidade motora é uma resposta do sistema nervoso, não é simplesmente treinar elementos de uma tarefa propositadamente para ensinar novas estratégias de movimento ou de aperfeiçoar as existentes. Não é um guia pré-definido que devemos seguir para alcançar êxito. É uma manifestação inerente do sistema de cada indivíduo em função da sua interação com as regras da tarefa e das demandas ambientais. Não deve ser utilizado como um jargão para quando não obtemos respostas para as nossas perguntas, ou para justificar “fazer qualquer coisa de qualquer jeito”. Isso não é aplicar conceitos de variabilidade motora.

É fácil ficar muito entusiasmado com algo novo ou popular, mas existe ciência por trás dos conceitos de variabilidade motora. E esses precisam ser muito discutidos ainda antes de chegarmos a consensos sobre avaliação, monitoramento e intervenção do movimento humano. Precisamos tomar cuidado para não deixar esse termo ser banalizado.

 

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