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Variabilidade de movimento e recursos motores. Talvez os dois termos que eu mais enfatizo nos meus workshops quanto a relevância deles para compreendermos a maior parte dos problemas encontrados em nosso dia a dia nas clínicas e nos centros de treinamento. Esse texto traduzido de Todd Hargrove ilustra muito bem esses conceitos.

Você pode conferir o original aqui

Boa leitura!

Pedro Emerson

O bom movimento não está somente relacionado à interação harmoniosa ou coordenação entre as partes diferentes do corpo. Está mais fundamentalmente relacionado a como o sistema interage com o ambiente, particularmente em resposta às mudanças inesperadas. Em outras palavras, o bom movimento implica em uma qualidade de adaptabilidade e capacidade de resposta a um ambiente mutável.

Podemos imaginar construir um robô humanoide que é capaz de andar com simetria e graça sem defeitos. Mas se o robô não puder adaptar seu padrão de marcha para acomodar mudanças no terreno, ele cairá cada vez que pisar em uma pedra, e sua habilidade de movimento é essencialmente inútil. A verdadeira inteligência do movimento, portanto, não existe de forma tão intensa nos próprios movimentos, mas na sua interação com o meio.

O passo largo gracioso do veado não é útil a menos que possa ser modulado para saltar um tronco e evitar um lobo. Um jogador de futebol que pode executar destreza tecnicamente brilhante com a bola na prática solo, não encara o teste verdadeiro até que ele desempenhe esses movimentos em uma situação de jogo contra um oponente que está tentando lhe tomar a bola.

Não diríamos que uma pessoa é fluente em uma língua se ela tem somente uma forma de comunicar um pensamento específico, independente de quão perfeita essa comunicação específica seja. Da mesma forma, uma pessoa não é fluente na linguagem do movimento a menos que ela possa realizar o mesmo objetivo de várias formas diferentes.

Uma pessoa que pode mover-se da posição em pé para sentada com perfeita suavidade, mas através de somente uma trajetória particular, tem menos recursos do que alguém que pode modular sua descida ao chão de várias formas. O levantador de peso que pode executar um agachamento de forma perfeita não está necessariamente preparado para um dia de jardinagem, onde os movimentos de agachamento precisam se adaptar constantemente ao meio – um pouco fora do centro, com seus pés em posições diferentes. (Para ser justo, o jardineiro provavelmente não está preparado para se agachar e levantar 100 quilos também.) Portanto, não podemos sempre avaliar o bom movimento por sua adesão a uma forma ideal, mas sim pela sua capacidade de se adaptar a muitas situações diferentes.

Essa capacidade para a adaptabilidade e desenvoltura não se aplica somente a esportes competitivos. Nossas vidas cotidianas constantemente apresentam movimentos inesperados ou desafios posturais:

Uma longa viagem de avião em um assento apertado

Uma noite no sofá ou em uma cama estranha

Andar com sapatos que são desconfortáveis

Carregar mantimentos em uma mão enquanto coloca um bebê no carro

Em cada uma dessas situações, resolver o problema motor pode requerer uma ruptura com aquilo que é normalmente considerado “boa” postura, forma adequada, ou a forma mais lindamente harmoniosa de se movimentar. A habilidade de encontrar uma solução motora para todos esses problemas inesperados é parte do que deveríamos considerar como inteligência motora.

Então o que isso significa em termos práticos? Uma dedução é que a inteligência motora é desenvolvida através do processo de encarar uma variedade de desafios motores. Isso é verdadeiro até mesmo em esportes que envolvem quase nenhum elemento de imprevisibilidade, aleatoriedade ou variação durante uma competição real.

Louie Simmons é um dos mais bem sucedidos treinadores em levantamento de peso do mundo. Este é um esporte que requer somente três movimentos simples na competição: agachamento, levantamento terra e supino. Apesar do vocabulário do movimento muito pequeno, Simmons treina seus atletas com uma constante variedade na forma como eles realizam esses movimentos – barras diferentes, pesos diferentes, velocidades diferentes, diferentes posicionamentos dos pés, etc. Parte de sua lógica é a seguinte: “Assim que seu corpo achar que tem todas as respostas, você precisa começar a fazer perguntas diferentes”.

Na vida moderna, a maioria de nós não está fazendo qualquer pergunta interessante sobre os nossos corpos de nenhum modo. Há poucos entraves que colocam o sistema nervoso sob demanda de encontrar soluções motoras criativas para problemas. Na verdade, toda a inteligência para resolver problemas motores foi exportada para os engenheiros ergonômicos especialistas que desenham nossas cadeiras, sofás e camas!

Em um ambiente natural, simplesmente encontrar um lugar confortável para descansar por alguns minutos é um desafio motor significante. O solo pode estar muito molhado ou pode ser muito rochoso para sentar, então você tem que se agachar. Se você se sentar no chão, a mobilidade do quadril e a estabilidade do tronco são desafiadas em múltiplos planos. A solidez e desnivelamento do solo requerem constantes mudanças de posição e de postura. Quando expostos a esses desafios, muitas pessoas experimentarão desconforto em menos de 10 minutos.

No mundo moderno, o desafio de simplesmente sentar e descansar é afastado. Não precisamos de qualquer variabilidade ou desenvoltura de movimento para resolver um problema de como nos sentarmos confortavelmente por 30 minutos numa cadeira. Na verdade, podemos descansar por oito ou nove horas sentado em total conforto sem usar qualquer inteligência motora de modo algum.

A lição:  Encontre um modo de desafiar suas variabilidade e desenvoltura de movimento. Use-a ou a perca!

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