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Este artigo descreve o que é aquisição de habilidade de uma maneira simples, incluindo as melhores estratégias de aprendizagem motora.

Em geral, as habilidades motoras são tarefas que exigem controle voluntário sobre os movimentos das articulações e de segmentos do corpo para atingir um objetivo. Alguns exemplos incluem andar de bicicleta, caminhar, pegar uma xícara de café, saltar, correr e levantar peso. O aprendizado e o desempenho dessas habilidades são o que os cientistas do movimento chamam de aprendizagem motora, ou aquisição de habilidades.  Seja conquistar a extensão completa do joelho após cirurgia de reconstrução do LCA, aprender a andar novamente ou aumentar sua proficiência em arremesso no basquetebol, o estudo da aprendizagem e controle motor desempenha um papel integral tanto no desempenho quanto na reabilitação dessas habilidades. Este artigo é uma introdução geral à ciência e filosofia da aprendizagem motora e do controle motor. Depois de definir vários termos-chave, iremos revisar os estágios da aprendizagem e conhecer duas teorias de controle motor, tudo isso enquanto prestamos homenagens àqueles que introduziram essa ciência no mundo.

Esse texto é uma tradução de um artigo publicado no Scienceforsport.com por Harjiv Singh. O autor é graduado pelo programa da Universidade de Columbia em aprendizado e controle motor. Ele é ex-jogador de voleibol profissional e atualmente é aluno de doutorado na Universidade de Nevada em Las Vegas (UNLV), estudando aprendizagem e controle motor. Você pode conferir o artigo original aqui 

O que é Aquisição de Habilidades?

A aquisição de habilidades (aprendizado motor) é a ciência interdisciplinar da intenção, percepção, ação e calibração da relação entre executor e o ambiente. Em particular, aquisição de habilidades é um termo generalista específico para o conhecimento de e sobre quais variáveis comportamentais e neurológicas influenciam a adaptação do sistema nervoso central em resposta à aprendizagem ou reaprendizagem de uma habilidade motora [5]. Em termos simplificados, a aquisição de habilidades refere-se ao controle voluntário dos movimentos das articulações e segmentos corporais em um esforço para resolver um problema de habilidade motora e alcançar um objetivo de tarefa.

Por que estudar a Aquisição de Habilidades é Importante?

O estudo da aprendizagem motora é uma abordagem abrangente para compreender o movimento humano fora das intervenções biomecânicas tradicionais. Como uma ciência interdisciplinar, a aquisição de habilidades engaja especialistas em neurociência, fisiologia, psicologia, biomecânica e coaching, como uma via para pesquisar como o sistema neuromuscular funciona para ativar e coordenar os músculos e segmentos envolvidos no desempenho de uma habilidade motora (NT: tarefa motora).

Embora existam muitas teorias diferentes em torno da aquisição de habilidades e das ferramentas utilizadas para aperfeiçoá-la, ainda há uma considerável falta de conhecimento que detalhe exatamente o que é adquirido durante a aquisição de habilidades e quais práticas são melhores para desenvolve-las. Araújo e Davids [1] tentaram responder a essa pergunta em seu artigo intitulado “What Exactly Is Acquired During Skill Acquisition?” (NT: “O que Exatamente é Adquirido Durante a Aquisição de Habilidades?”). Eles concluíram que a aquisição de habilidades é definida como um processo teleonômico que envolve um ajuste contínuo. A razão para eles usarem os termos “ajuste contínuo” é porque a aquisição de habilidades ocorre através da criação e adaptação de uma relação funcional com o ambiente, ao invés da formação de uma entidade [1] (NT: uma das teorias de controle motor do início do século passado sugeria que o comando motor era realizado por uma espécie de “homúnculo” em nosso cérebro, que continha todas as informações pertinentes a ação – uma entidade). Em outras palavras, está sempre sendo adaptado ao ambiente.

Estágios da Aprendizagem Motora

Desde a sua concepção, a aquisição de habilidades evoluiu de um subcampo da psicologia para a sua própria vasta interpretação da relação cérebro-comportamento. Embora existam muitas teorias sobre aquisição de habilidades (discutidas mais adiante neste artigo), pioneiros de todo o mundo, no entanto, concordam que uma característica importante da aquisição de habilidades é que as pessoas passam por estágios distintos, muitas vezes chamados de “estágios da aprendizagem”.

Existem predominantemente três interpretações dos estágios da aprendizagem motora. Fitts e Posner [3] foram os primeiros a desenvolver uma sequência de prática de três estágios, enquanto Ann Gentile [4] chegou vários anos depois e introduziu um modelo de dois estágios. Nikolai Bernstein [2], cujo trabalho foi recentemente publicado em inglês, era um neurofisiologista que estava interessado especificamente em controle motor. Ele teorizou a evolução do movimento através de uma abordagem abstrata, porém baseada em evidências.

Embora todos pareçam compartilhar semelhanças, eles diferem em suas próprias respectivas perspectivas sobre como a percepção e a ação desempenham um papel conjunto na aquisição de habilidades, com Bernstein argumentando que uma habilidade motora é aprendida através da solução de um problema motor. Para colocar isto em termos mais simples, as teorias de Fitts, Posner e Gentile são como aprender a tabuada de multiplicação, enquanto a teoria de Bernstein seria como  aprender  PEMDAS (NT: ordem de resolução das operações matemáticas) e resolver problemas complexos. Para entender melhor isso, vários exemplos são explicados a seguir.

Fitts e Posner – Estágios de Aprendizagem Motora

No final dos anos 1990, Fitts e Posner (3) desenvolveram uma sequência de três estágios de modelo de prática.

Estágio 1: Estágio Cognitivo
Estágio 2: Estágio Associativo
Estágio 3: Estágio Autônomo

O primeiro estágio foi chamado de estágio cognitivo, em que o iniciante se concentra principalmente no que fazer e em como fazê-lo. Para colocar isso em contexto, um jogador de voleibol pode perguntar: Quão alto deve ser o meu arremesso de saque? por exemplo. O aluno presta atenção quando recebe feedback do treinador. Este estágio geralmente é preenchido com vários erros, grandes ganhos e falta de consistência. O treinador desempenha um papel crucial, enquanto caminha na linha tênue entre dar o um feedback sob a forma de uma tarefa cognitiva e não como uma intervenção mecânica. Outro nome para este estágio é estágio verbal-motor.

O segundo estágio desse modelo é conhecido como estágio associativo, em que, após uma quantidade não especificada de prática, o desempenho começa a melhorar. A pessoa está agora associando sinais específicos para resolver o problema motor que está enfrentando. Erros menores e melhor consistência são apresentados. Isso porque os fundamentos básicos foram estabelecidos e agora estão sendo refinados. Naturalmente, a variabilidade do desempenho diminuirá. O aluno gasta muito esforço consciente aqui, muitas vezes concentrando-se principalmente nos movimentos do corpo. Outro nome para este estágio é estágio motor.

O terceiro estágio deste modelo é o estágio autônomo, no qual a habilidade se tornou automática. Há pouco ou nenhum pensamento consciente e o aluno pode muitas vezes fazer outra tarefa ao mesmo tempo, como manter uma conversa. O auto aprendizado torna-se enorme aqui porque indivíduos habilidosos podem detectar seus próprios erros e fazer os ajustes apropriados.

Como treinador ou clínico, Fitts e Posner [3] deixaram claro que muitos não atingirão esse terceiro estágio. Como referenciado por Magill e Anderson [5]: a sua instrução, junto das variáveis da tarefa e da estrutura da prática determinam a aquisição deste estágio.

Ann Gentile – Estágios de Aprendizagem Motora

Em 1972, Ann Gentile [4] propôs o modelo de progressão de dois estágios de Gentile, vendo a aprendizagem de habilidades motoras como relevante para o objetivo.

  • Estágio 1: Estágio inicialObjetivo 1: Adquirir um padrão de movimento

    Objetivo 2: Discriminar entre condições regulatórias e não-regulatórias

  • Estágio 2: Estágios posterioresObjetivo: Adaptação, consistência, e economia

Nos estágios iniciais de aprendizado, listados abaixo (Tabela 1) como um modelo de progressão da prática, o padrão de movimento é um dos dois objetivos importantes para o aluno. Ele se depara com a difícil tarefa de se adaptar às  características do contexto ambiental, com as quais as características do movimento devem estar de acordo para que o objetivo da ação seja alcançado [5].

Por exemplo, se um levantador de voleibol está praticando com uma bola de treinamento, que tende a ser mais pesada que uma bola de vôlei normal, ele deve se concentrar em desenvolver as características do braço e da mão que correspondam às características físicas (NT: impostas pela tarefa). Pense em levantar um peso de 10kg e um peso de 50kg. Existe um padrão de movimento diferente que melhor se adapta a cada objetivo. Outro exemplo é após uma reconstrução do Ligamento Cruzado Anterior (LCA), um indivíduo pode precisar praticar subir escadas. As condições regulatórias incluem o número de degraus, o tamanho de cada degrau e a forma da escada, por exemplo.
Paralelo a isso, o segundo objetivo é discriminar entre as condições regulatórias e não-regulatórias dentro do contexto ambiental. Condições não-regulatórias são aquelas características do ambiente que não têm influência ou permanecem como influências indiretas no movimento necessárias para atingir um objetivo de ação [5]. Usando o mesmo exemplo de LCA, a cor das paredes circundantes é um exemplo de uma condição não regulatória. É importante ressaltar que a literatura está agora se concentrando mais nessas influências indiretas, particularmente ao fornecer escolhas ao aluno [7].

Para dominar esses dois objetivos, o aluno precisa explorar uma variedade de soluções de movimento. Ao fazer isso, ele se envolve na resolução de problemas cognitivos. O padrão de movimento estabelecido torna-se um conceito generalizado, nem consistente nem eficiente. Os últimos estágios da aprendizagem (Tabela 1) são onde o aluno adquire três características gerais. Ele precisa adaptar os padrões de movimento a restrições específicas, aumentar a consistência na solução do problema motor e executar a habilidade com uma economia de esforço. Para facilitar isso, o treinador novamente precisa identificar as variáveis de tarefa, definir parâmetros de variáveis-chave e induzir efeitos de interferência contextual.

tabela11

Tabela 1 – Etapas do Modelo de Progressão da Prática de Aprendizagem (Recriado em referência a Magill e Anderson, 2007).

Nikolai Bernstein – Estágios de aprendizagem motora

Enquanto o modelo de dois estágios de Gentile ainda continua a ser bastante usado hoje em dia, muitos especialistas em aquisição de habilidades defendem o tesouro perdido de Nikolai Bernstein, que descreveu o processo de aprendizagem da seguinte maneira:

Primeira Fase: Resolvendo um problema motor, que nível assume o papel principal?
Segunda Fase: Desenvolver uma representação ou estratégia motora para abordar o problema.
Terceira Fase: Identificar as correções sensoriais mais apropriadas.
Quarta Fase: As correções são entregues ao nível de experiência e são realizadas sem atenção consciente.
Quinta Fase: Padronização
Sexta Fase: Estabilização

Bernstein [2] argumentou rapidamente que a aquisição de habilidades começa resolvendo um problema motor, destacando o termo “problema”, fornecendo assim uma descrição abrangente de quão difícil a aquisição de habilidades realmente é. Pense na chave da sua casa, a única maneira de abrir sua porta é se essa chave se encaixa perfeitamente nessa fechadura. No entanto, no processo de fazer isso, você tem que tirar a chave do seu bolso, colocar através do espaço do buraco da fechadura, e somente através de um processo de precisão de aperto
e rotação sua porta se abrirá.

Para esmiuçar isso ainda mais, a única maneira de você aprender essa tarefa é acumulando experiência ao longo da sua maturação, quando você alcançou a bochecha da sua mãe, pegou o brinquedo da mesa, colocou blocos no cercadinho e assim por diante. Bernstein simplificou criativamente isso através de quatro níveis. Primeiro, há um nível de liderança, o nível das ações (nível D) que é responsável por planejar e exercitar o controle. Depois vem os níveis evolutivos mais antigos que fornecem mecanismos para a construção de movimento. Bernstein explicou isso simplesmente como “coordenando movimentos com o espaço externo (nível C), organizando sinergias musculares (nível B) e regulando o tônus muscular (nível A). “Repetição sem repetição”, como é famosamente afirmado por Bernstein, e ele mesmo nos lembra que nenhum padrão de dois movimentos jamais será  o mesmo. Portanto, é imperativo não se envolver em prática rotineira e repetitiva quando a ideia de transferência envolve situações variáveis, complexas e cognitivas – isso é feito através de parâmetros de variações de cada nível.

É importante pensar em como evoluímos como seres humanos, essencialmente desde a era pré-histórica, quando a locomoção quadrúpede (NT: tipo o gorila) era a forma de locomoção apresentada por nossos ancestrais, e muitos anos , depois descobrimos como andar eretos devido a uma interação complexa de todos os níveis e ao ambiente.

Outro exemplo é: se não fosse pelo nível A, como um sapo aprendeu a sair da água para andar e pular? De fato, quando aprendemos como sacar uma bola no voleibol, os técnicos começam do nível A e trabalham em um trajeto até o nível D, depois de um certo período de prática e treinos. A melhor parte é que o que aprendemos nesses níveis se traduz em outras tarefas (por exemplo, um saque de vôlei se assemelha um arremesso de beisebol).

A segunda fase é desenvolver uma estratégia para abordar o problema. Isso pode ser relacionado de volta ao ‘estágio cognitivo’ de Fitts e Posner [3], onde o aluno está tentando descobrir como atingir o objetivo da tarefa. Segundo Bernstein, o aluno recruta e atribui papéis aos níveis inferiores. Por exemplo, quais músculos e quanto da capacidade de contração muscular serão recrutados. Se você está sendo perseguido por uma cascavel, haverá claramente mais contração muscular do que se você estiver correndo dando voltas em uma pista de corrida. De qualquer forma, você ainda está envolvido na habilidade motora de correr, mas com diferentes objetivos de tarefa.

A terceira fase é identificar as correções sensoriais mais apropriadas. Essa fase é importante porque o aluno deve saber como a habilidade é percebida (NT: do inglês “feels”, ou seja, qual a sensação da experiência para o aluno). Mais importante: como a habilidade é percebida em diferentes contextos? Em suma, esses estágios iniciais são estágios de planejamento em que ficamos construindo cautelosamente os limites nos quais uma ação ocorrerá. A quarta fase é quando as correções são entregues aos níveis de experiência sem atenção consciente – é com isso que o momento “ah ha” se parecem [5].

Uma coisa que separa Bernstein dos outros é o papel das correções sensoriais [2] como dito acima, através do feedback automático. Pense em como é fácil para você agora tirar uma chave do bolso e abrir a sua porta. Muitos pesquisadores se referem a isso como a estratégia do movimento.

Até aqui, construímos uma orquestra, em que todos os componentes aprenderam sua parte. Agora estamos prontos para ensaiar como uma orquestra completa. Harmonia, padronização e estabilização são componentes-chave para a fase final deste modelo. O aluno é capaz de neutralizar perturbações externas que impedem que a habilidade seja
“desautomatizada”. Para resolver um problema motor de forma consistente sob uma variedade de condições, o aluno deve experimentar tantas modificações quanto possível da tarefa, uma forma de repetição sem repetição [2].

Vamos colocar uma luva na sua mão durante uma forte nevasca. A tarefa de abrir a porta com uma chave torna-se um pouco diferente de antes. Pense em uma reconstrução do LCA, quando o ligamento está de volta, mas agora se trata de ensiná-lo a como funcionar com o resto do corpo em diferentes condições. Por fim, Bernstein afirma em seu livro, Destreza e seu Desenvolvimento (NT: “Dexterity and its Development”)[2], “O ponto é que durante um exercício, um estudante fica repetindo muitas vezes, não a forma para resolver um determinado problema motor, mas o processo de sua solução, a mudança e melhoria dos meios (p. 205).”

Teorias de Aprendizagem Motora

Até aqui, discutimos três estágios relevantes e proeminentes de teorias da aprendizagem. Enquanto eles compartilham semelhanças e diferenças, a aquisição de habilidades é muito mais profunda do que isso. A breve visão geral acima leva muito bem à próxima seção, que explica duas teorias gerais de controle motor. A principal questão que os pesquisadores buscam responder é: como o corpo (músculos e articulações) se move independentemente em um ou mais planos para realizar o movimento desejado (coordenação)? Na verdade, o que os pesquisadores estão abordando atualmente é como essas perspectivas e teorias podem compartilhar o mesmo princípio subjacente de ‘ruído’ ou ‘variabilidade’, já que podem estar relacionadas a fatores de motivação e atenção.

Uma frase comum na literatura de aprendizagem e controle motor é os ‘problema de graus de liberdade’ [2]. Simplificando, há muitas maneiras de coordenar nossos músculos e articulações para resolver um problema motor. Voltando ao exemplo da chave acima, você pode diferenciar a mão que usa, o número de dedos que usa, o número de outras tarefas que você está fazendo simultaneamente (por exemplo, como falar no telefone, etc.). Do início ao fim, precisamos resolver os graus do problema de liberdade, ou seja, ser capazes de controlar o corpo para produzir o movimento desejado em qualquer situação que surja. As teorias seguintes explicam como o sistema nervoso resolve esse problema.

Teoria do Esquema de Schmidt: Programa Motor Generalizado

A primeira é a teoria baseada em programa motor, que é uma teoria hierarquicamente orientada. Schmidt [7] define um programa motor como uma representação abstrata de um plano de movimento, armazenado na memória, que contém todos os comandos motores necessários para realizar a ação pretendida. Ele representa uma classe de ações que podem ser modificadas para produzir vários resultados de resposta. Por exemplo, um salto vertical bilateral é o deslocamento do centro de massa de um indivíduo. Isso não é diferente de um salto vertical com uma perna só, de pular uma cerca ou subir as escadas. Pense em uma biblioteca onde, quando você procura por William Shakespeare, você chega a uma seção de todos os livros relevantes para esse autor, apesar do título exato do livro que você está procurando. Existem características invariantes subjacentes que não mudam, independentemente do que você faz. Estas são características que permanecem inalteradas, independentemente das mudanças nas condições de medição. Um salto vertical será sempre o deslocamento do centro de massa de um indivíduo, enquanto a seção de livros da biblioteca será toda de William Shakespeare.

Ao mesmo tempo, o aluno precisa adaptar os parâmetros às diferentes demandas de tarefas. Cada habilidade motora possui características invariantes que são fixas (por exemplo, tempo relativo, força relativa, sequência) que muda de situação para situação. Um programa motor é um conjunto pré-estruturado de comandos que são construídos nos níveis corticais mais altos e depois transportados para os centros inferiores dentro da hierarquia responsável pela execução do movimento. Em outras palavras, você desenvolveu um programa motor que não precisa mais de pensamento consciente. Por exemplo, quando você anda, você fica pensando em dorsiflexão e flexão plantar?

Isso pode confundi-lo porque acabamos de referenciar os níveis com Bernstein acima. Observe aqui, no entanto, que a teoria de Bernstein não é uma hierarquia, mas uma interação motora perceptiva contínua. Schmidt [7] mais tarde faz referência ao termo ‘esquema’ como um conjunto de regras que orienta a tomada de decisão sobre o objetivo da habilidade. Por exemplo, um jogador de vôlei pode lançar a bola em qualquer lugar do lado adversário, mas as informações que ele recebe dita principalmente onde a bola pode ir. Para resumir o que é chamado de teoria do programa motor generalizado’, quatro informações são importantes [5]:

  1. As condições ambientais quando o movimento começa
  2. Os requisitos específicos do movimento (por exemplo, velocidade, força, etc.)
  3. A consequência sensorial do movimento (ou seja, como ele é sentido)
  4. O resultado do movimento (ou seja, resultado real e resultado pretendido)

Tudo isso ocorre através de dois mecanismos. O ‘Esquema de recordação’ essencialmente significa organizar o programa motor, para iniciar o movimento e o controle. O ‘esquema de reconhecimento’ avalia e compara o resultado usando informações sensoriais. Em outras palavras, o primeiro atualiza o sistema e o segundo o revisa [5].
Concluindo, o programa motor generalizado representa uma classe de ações ou padrões de movimento que podem ser modificados para produzir vários resultados de resposta. As características invariantes são relativamente fixas, enquanto os parâmetros são características flexíveis que definem como executar o programa motor generalizado, facilmente modificado de um atleta para outro.

Perspectiva dos Sistemas Dinâmicos

A segunda teoria do controle motor é a ‘Perspectiva dos Sistemas Dinâmicos’. Esta é uma perspectiva não linear onde o padrão de movimento surge em função de restrições ambientais, do organismo e da tarefa. Todas as informações necessárias para que o movimento seja bem-sucedido são encontradas no ambiente e podem ser observadas pelo aluno. Não há controle hierárquico aqui porque a cooperação entre os pequenos sistemas (por exemplo: muscular, esquelético, neurológico e biológico) não tem um comandante, o que significa que o movimento se auto-organiza. Uma restrição limita as capacidades de movimento do indivíduo [6]. Conforme indicado abaixo, e como visto na Figura 1 abaixo, existem três categorias de restrições.

  • Organismo (por exemplo: estrutura / funcional) incluem a forma do corpo, peso, altura, cognitivo, etc.
  • Restrições ambientais incluem temperatura, luz, vento, público/audiência, etc.
  • Restrições de tarefas são essencialmente as regras do jogo, objetivo da tarefa e os implementos/instrumentos sendo manipulados.

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Figura 1 – Auto-organização por interação de restrições

Um resultado da interação dessas restrições (Figura 1) é o nosso estado estável. Um aluno prefere estar em um estado estável, que também é conhecido como o ‘estado atrator’ dentro da literatura de controle motor. Quando uma alteração nas restrições ocorre, a estabilidade do nosso sistema é perturbada. O padrão de movimento é forçado a se
reorganizar e uma nova estratégia motora surge para recuperar a estabilidade.

Pense em aumentar a velocidade em uma esteira ao ponto que você não pode mais andar, sendo forçado a correr. Para os pesquisadores de prevenção de lesões, o período de tempo da perturbação até o alcance da estabilidade é o ponto em que as pesquisas sobre lesões precisa enfatizar. Além disso, parâmetros de controle como direção, força, velocidade e informação perceptiva são variáveis que levam o aprendiz para um novo estado atrator. Essa perspectiva enfatiza a interação entre o aprendiz e o ambiente físico. Portanto, a coordenação é vista como uma interação de restrições, estabilidade e a habilidade necessária; não sendo tanto um programa motor generalizado pré-definido. Embora não esteja no âmbito desta introdução, existem fatores psicológicos que auxiliam na identificação de parâmetros de contexto para os quais uma ação pode ser selecionada. Estes incluem sustentações, atenção, motivação, cognição, experiência e muito mais.

Questões com Aquisição de Habilidades

Visto que a aquisição de habilidades ainda está em sua infância, os pesquisadores ainda estão tentando descobrir quais são as melhores práticas que melhoram o processo de aprendizado motor para habilidades motoras complexas e aplicadas fora do ambiente de laboratório. Abordagens tradicionais para aquisição de habilidades falharam em capturar a aprendizagem motora como um reflexo da atividade exploratória. Em outras palavras, ainda estamos na era de reproduzir representações estáticas de um movimento, condicionados a seguir demonstrações sobrecarregadas de instrução (ou seja, excesso de correções) e, portanto, parece que estamos perdendo de vista a complexidade do movimento como um produto do executor e seu ambiente. Isto é particularmente evidente nos métodos de treinamento de jovens usados em países desenvolvidos por meio de exercícios repetitivos e não exploratórios.

É, portanto, imperativo que aprofundemos o diálogo, talvez na direção da abordagem ecológica (por exemplo, teoria dos sistemas dinâmicos) à percepção e à ação. Outra questão parece ser uma abordagem coletiva para entender a semelhança subjacente entre todas as teorias e perspectivas de aprendizagem e controle motor. Pode ser que o ‘ruído’ ou a ‘variabilidade’, como uma função de motivação e atenção, sirva para ser uma resposta. Claro, isso não é nada além de intuição e precisa ser mais investigado em diferentes tarefas.

Pesquisas Futuras

Embora muitas linhas de pesquisa ainda precisem ser exploradas, a tão chamada teoria “Ótima” (Otimizar o Desempenho por Motivação Intrínseca e Atenção para Aprendizagem) é um excelente ponto de partida, já que engloba a natureza interdisciplinar da aquisição de habilidades. Outra área de importância é como trazer a pesquisa do laboratório para o campo, particularmente para esportes baseados em equipes e indivíduo. Algumas outras áreas
importantes da pesquisa incluem:

Quantificar a taxa de sucesso na prática
Preencher a lacuna entre biomecânica e aprendizagem motora no treinamento
Feedback (suporte de autonomia, foco externo / foco interno, positivo / negativo) Quando? Onde? Como?
Efeito da interferência contextual na aquisição de habilidades do iniciante à continuidade do especialista
Aprendizagem representativa na prática
Treinamento para a tomada de decisões melhorada no esporte

Conclusão

Para concluir, a aquisição de habilidades preenche a lacuna entre a ciência do treinamento, da reabilitação, da força e condicionamento, e da recuperação. É a base da ciência do esporte que todos os praticantes, treinadores e clínicos devem entender. Mais importante ainda, é uma abordagem interdisciplinar para compreender a relação cérebro-comportamento.

 

[content_box type=”with-header” title=”Referências” text_color=”dark” color=”default”]

  1. Araújo, D., & Davids, K. (2011). What exactly is acquired during skill acquisition?. Journal of Con-sciousness Studies, 18(3-1), 7-23. https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/10054163/araujodavids2011_jss.pdf?AWSAccessKeyId=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A&Expires=1531669718&Signature=SeSxTzz8deIlGugHdYxCun5MJ4A%3D&response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DWhat_Exactly_is_Acquired_During_Skill_Ac.pdf
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  1. Gentile, A. M. (1972). A working model of skill acquisition with application to teaching. Quest, 17(1), 3-23. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00336297.1972.10519717
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